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sábado, 12 de janeiro de 2008

Em terra de cego quem tem olho é... conflitante.

Hoje eu vi o filme "Eu Sou A Lenda", onde o personagem principal está sozinho em um mundo devastado por um vírus que matou 90% da população e deixou a maioria restante em sintomas similares ao da raiva. O interessante do filme para mim não foi isso, não que o filme seja ruim, foi que em uma cena, um humano (se é que esse tem o direito de portar tal palavra) infectado, raivoso e doentio como os outros que apenas mordiam e pulavam em vítimas, soltou alguns cachorros também infectados e igualmente transtornados para atacarem seu alvo, e naquele momento notei que esses seres infectados compartilhavam entre si uma convivência similar a humana, a mesma convivência notada em outras partes do filme onde esses seres apresentavam traços de liderança e estratégia.
Aí que veio a divagação, e quando vem ela tarda a sair embaladinha e arrumadinha nessas palavras que você está lendo. O personagem do filme analisava o comportamento dos humanos infectados como uma anti-evolução social, algo como uma anti-evolução humana, e é aí que me pergunto: o quanto nós estamos infectados?
Pense por um momento que no meio de São Paulo capital surgisse um homem que aparentasse como outro qualquer, mas que andasse de forma lenta, não tivesse pensamentos ambiciosos ou agressivos, e fosse muito, muito calmo. Agora pense que esse homem fosse atravessar uma rua altamente movimentada para tomar um café do outro lado, ou que ele resolvesse sentar na mesma rua para ver o sol se pôr. Qual seria a nossa reação a tal atitude? Ou melhor: qual seria a visão dele de nossas atitudes?
No melhor cenário ele seria ao menos arrastado para longe da rua, no pior ele seria assassinado por não funcionar no tic-tac do sistema. E como ele veria isso, veria da mesma forma que vemos esses seres ficcionais do filme, infectados? Raivosos? Anormais?
Uma vez me falaram a tal frase que muitos já devem ter ouvido:
Em terra de cego quem tem olho é rei.
E nessa análise, quem possui o olho? Nós ou o nosso visitante super calmo? Quem tem a razão ou a superioridade moral para falar em como o outro deve agir, ou seja, quem tem o poder de julgar?
Primeiramente vou esclarecer que não acho que estamos infectados de forma alguma, falei de forma hipotética, e em segundo lugar: essa anedota está completamente errada, quem tivesse o olho nunca, nunca seria rei, como os outros veriam essa visão, como a entenderiam?
Outro filme que também deve ser levado para essa divagação (para quem ainda não sabe eu sou um cinéfilo*) se chama "Um Estranho no Ninho" e trata de algumas estórias que se passam em um manicômio na década de 1960, onde ainda se praticava a lobotomia, que é basicamente pegar um doente mental considerado agressivo e realizar uma incisão em seu córtex frontal para que ele se torne manso, ou seja, abrir um buraco na cabeça de um doente para que ele se torne um retardado, perca a abilidade mental de falar, pensar e urinar no vaso sanitário, entre outros. Quantas pessoas perderam suas faculdades mentais por essa prática no tempo em que ela foi considerada correta? Aliás quantos doentes perderam suas faculdades mentais?
Não só a prática da lobotomia é uma prática imoral, quantas pessoas sãs ficaram todas as suas vidas presas em manicômios por thinking outside the box**? Um exemplo disso foi o homem considerado louco que acreditava na existência de germes e falava deles e as doenças que esses germes podiam causar, claro, alguns séculos depois descobriram que o homem estava certo, mas até lá ele já estava morto e já havia passado sua vida trancafiado (fato falado no filme "Os 12 macacos", um filme muito bom, muito misterioso).
A que ponto chega a capacidade humana de julgar por sua prepotência e pseudo-superioridade moral? Temos realmente o direito de dizer quem é louco e quem é são? A história nos diz que não, que podemos muito bem estar errados. Temos o direito de utilizar nossa idéia de superioridade moral pra transformar a Terra como bem quisermos sem se importar com os outros moradores ou mesmo com os outros humanos? Nesse quesito a própria lógica diz que não. Por exemplo, nós temos uma ciência que já chegou a descobrir que os outros mamíferos possuem um sistema nervoso similar ao nosso, e ainda assim colocamos um cabo USB na cabeça de um felino pra saber se o último lote de ração está agradando ou não, desconsiderando o fato que sabemos que está causando dor! E além disso sabemos por lógica que a natureza viveria sem nós, e que eles são mais merecedores da vida do que nós que somos destruidores natos, mas continuamos a destruir e a reproduzir.
Não se engane, somos todos cegos, eu inclusive, o título foi só para chamar atenção e citar a idéia do texto, e claro, a ceguisse tratada é relativa. Não somente somos cegos como ainda vedamos o que temos de visão, nesse caso mentalidade e consciência, constantemente, a fim de justificar atos que sabemos que são errados, desde queimar gasolina tendo consciência do aquecimento global até a utilização de bombas nucleares.
Não proponho que ninguém se rebele agora, que vire contra a humanidade, nao proponho nem que entendam tudo o que eu quis expressar, só tenho o desejo de que você leitor veja a vida de forma diferente, aliás quem sabe se um de vocês não tenha um olho enquanto todos os outros sejam cegos?

Agora que coloquei o contador de visitas no meu site tenho alguma noção da divulgação dos meus artigos, e peço para quem chegou a esse link e teve paciência para ler um post por inteiro que faça a gentileza de postar um comentário, que são o instrumento que me incentivam a postar.
Ontem foi o aniversário da minha comentadora oficial, e como um presente adicional escrevi esse post com idéias anti-violência a animais para que ela possa comentar a vontade.
E também para quem me conhece peço que não comentem falando meu nome.

*Cinéfilo: amante do cinema.
**A expressão americana thinking outside the box significa algo como "pensar fora do normal, do previsível", utilizada para incentivar criatividade.

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