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domingo, 14 de novembro de 2010

Arte Verde - I

- Mas os operadores do barracão 4 não estão cumprindo as metas já há três meses. Repito: Três meses! - Para Fernando era engraçado ouvir a palavra "operadores" vindo daquelas pessoas, aqueles líderes desrespeitosos com eles mesmos, seus subordinados e todo o resto do mundo; provindos das mais insufladores de egos das escolas, porém que em tais reuniões se corrijiam do rude - cuspido, alguns diriam - termo "peão", ou "lacaio" (sendo o último caso para os mais cultos dos arrogantes), limitando-se ao comportado "operador".
- Essa regalia não pode continuar. - Dizia outro.
- O recursos humanos já se pronunciou, - recomeçou o homem do "operadores" - três semanas é o tempo hábil de que precisam e podemos suprir com nova mão-de-obra nossas necessidades.
Ouvia a tudo, Fernando, daquela conversa tão normal. Normal era tratar dos subordinados como peças. Normal era a recontratação em massa - curioso que não a tratam por "demissão em massa". E ele possuía um papel importante naquilo tudo, o cumpriria bem, tentaria dar um parecer para ambos os lados - os líderes que não obtinham produção e os peões revoltados. Porém havia algo de diferente, alguma memória dentro de Fernando estava prestes a emergir do denso mar do seu passado. Ainda não a via, porém algo de desconcertante estava a surgir em seus pensamentos.
- Isso contando que mantemos os líderes-dois ou os líderes-um? - Falou um dos homens à mesa.
"Ípsilons... Algo com ípsilons." Pensava Fernando, já um tanto alheio à conversa.
- O pessoal da qualidade já fez o levantamento dos que vão ficar, mas em teoria 100% dos líderes-dois e algo como 30% dos líderes-um. - Respondeu outro.
E veio a ele a lembrança em seu estado bruto. Escreveu prontamente as palavras que o acomenteram com sua lapiseira em uma folha a sua frente e leu o que havia escrito para seus colegas:
- "Até os ípsilons são necessários." - Sem obter significativa resposta, ou mesmo constatação de seu comentário, fato justificado que por essa primeira vez a frase ter saído em um tom de voz um tanto baixo, repetiu a falar, agora a pleno pulmão e olhando a seus companheiros, de forma pausada:
- Até os ípsilons. São necessários.
Nada. Nada além de olhares confusos obteve Fernando como resposta. Na verdade, falar em voz alta tal emblema o fez se lembrar de onde e quando havia enterrado tal peça em sua memória, de onde e quando havia pela primeira vez lido tal artefato, muitos e muitos anos atrás. Pediu licença para seus colegas - que encontravam-se um tanto confusos -, levantou-se de sua cadeira da mesa elíptica e dirigiu-se até o banheiro.
"Um olhar para si próprio revela mais do que cem padres e psicólogos", lembrou-se da expressão que sua mãe tanto falava, ao entrar pela porta e encarar o grande espelho, com este encarando-o em retorno.
Quem o mirava era um ser de olhos cansados e afundados em densas olheiras, deixando a mostra uma vida de pouco descanso. Além dos olhos viam-se lábios rompidos em diversos pontos, presente de si próprio por motivos de nervosismo, mania que tinha desde criança. Acima da boca, olhos, óculos, e bochechas brancas, a testa via-se extensa, mais do que o quanto se lembrara, com os cabelos bagunçados e o pescoço já escondido, por motivo de que o homem tinha a ruim mania de projetar a cabeça a frente para ler, alimentar-se ou concentrar-se.
Era uma pessoa curiosa, certamente, mas mais do que isso, era alguém estranho. Estranho a si próprio, via a notar. E aquelas palavras - até os ípsilons são necessários - sabia mesmo de onde vinham? Estremeceu-se.
E como uma onda surda de verão, do observador distante e concentrado na imagem a qual se observa, surgiu de dentro de Fernando um fenômeno surrealmente quieto, só o sentia, como que do fundo de sua mente. Surgia a lembrança.
Verão de 2011 - lembrou-se, e tudo veio a tona.
Arte verde que teve em suas mãos e que a tudo mudou. Entidade de tamanha força, que na época fez com que Fernando questionasse suas próprias escolhas, sua vida, sua sociedade. Seu rumo, lembrava-se bem, seria traçado a partir da compreensão daquelas impactantes palavras, que para ele tanto significaram.
Verão de 2011. Mesmo verão em que Fernando havia deixado cair de suas mãos seu óculos (desastrado que era), em direção ao chão duro, espatifando suas lentes em dezenas de peças cortantes.
A verdade - e no fundo de seu eu, com certeza, ele já a sabia - encontrou-o: Como sua lente espatifada era sua mente e sua alma. Como seu óculos ele pôde partí-la em diversos pedacinhos de si. Em algum momento de seu passado todo o que viera da arte verde havia sido colocada em um só daqueles pedacinhos de Fernando, e assim este conseguiu remediar sua maioria conservadora das idéias revolucionárias que um dia teve, de como sua vida poderia ter mais significado, como o mundo poderia ser visto com novos olhos. E esta mísera parte de si mesmo havia sido guardado tão fundo adentro de Fernando, que somente poucas lembranças a trariam de volta a superfície, para novamente haver de emergir para o esquecido.
E assim o fez, como havia de ser. Pois não há mestre de empresas, homem de família, onde também há o estudante infinito, o apreciador da arte a ser buscada, o viajante eterno, o suicida e o depressivo, todas essas facetas unidas em uma única palavra: o novo. Pois o novo não serve para a sociedade, para o bem comum, sabia bem. E com esta frase de tamanha covardia Fernando tornou a vestir sua face de seriedade, a evitar de encarar o seu eu estranho preso a um espelho da verdade intolerável, e retornou a seus deveres. Haviam pessoas a serem demitidas, novas peças a serem anexadas e novos produtos a serem produzidos.
E novamente aquele rebelde dentro de si teve de ocultar-se perante a normalidade das coisas, e a falta de coragem do homem que já quis tudo por uma leitura revolucionária, por um novo olhar de seu mundo que de tão devassador nada mais poderia requisitar de seu visionário além do fim de sua normalidade e de sua ordem supostamente natural.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Tulipas - Primeira Parte.

E de repente, não mais que de repente, ao vislumbrar mais uma vez o azul pálido das gélidas paredes de seu quarto de dormir, no canto em que, além de dividirem aresta entre duas de suas representantes, encontravam-se com os degrais brancos do detalhamento em gesso do revestimento do teto; ao som de nada mais que o raro silêncio presenteado por ainda mais raros momentos em que a mente está tão maravilhada por acasos de um vislumbre de algo tão belo que se fazem calar as vitrolas do pensamento; ao sentir do acolhedor toque de seu colchão de descanso do alto de sua nuca até seus calcanhares em movimentos curtos, sentiu-se mais do que si mesmo. Sentiu-se mais do que se deve sentir em quedas livres de aviões rompidos, ao respirar ar fresco após décadas de aprisionamento ou em observar terra firme após longo tempo em náufrago. Sentiu mais do que se deve sentir em uma vida de emoções. Sentiu todo o seu mundo, tudo o que conhecia por real ou abstrato mergulhar verticalmente em seu âmago. Sentiu-se frágil como cristal e potente como um touro enraivecido; aberto para sentimentos a descobrir, e segregado aos que predecera aquele momento tal coleira em pescoço de carne viva.

No espaço de tempo do bater de asas de um beija-flor, tudo o que o havia inundado retornou agilmente a seu antigo local de equilíbrio. Porém tudo era novo a seu próprio modo, assumindo novo significado e vigor.
- Tome-me. – Disse o garoto de aparência exausta, após breve hesitação, movendo seus grandes olhos vagos em direção à sua co-protagonista. – Tome tudo o que tenho e que já tive. Tome meu coração e o meu peito; meu esqueleto esguio, carne e órgãos. Tome tudo o que já emanou meu nome para si. É seu, tudo é seu e de ninguém mais, pois sem você este todo não passaria de carcaça putrefada e gélida, movendo-se por inércia e códigos de conduta.
“Nada peço em troca”. Continuou o garoto. “Nada que haveria de ser debitado de minha rainha e dona poderia vir a trazer-me crédito.”
Os olhos do garoto então deslocaram-se daquela figura já deformada pelo tempo em sentido às suas próprias mãos. “Ela amava estas fracas mãos” pensou.
A inescrupulosidade da realidade ataca como cobra peçonhenta aos que fogem de sua ordem, e, ao sentir o veneno áspero da impotência, o garoto agora desperto, já em olhos fadigados e mãos demasiadamente surradas, correu seu braço à procura do quente que não mais fervia; do volume não mais ocupante do espaço a seu lado, da luz que não mais brilhava por entre suas cobertas agora desertas.

Com as lágrimas que invariavelmente correm pelos rostos dos que sofrem de amor, garoto-homem tomou então sua decisão: Não havia mais nada a perder, e ninguém mais por quem perder. Moveu olhar e mãos trêmulas à caixa que a semanas estava à espera da fria aceitação da morte certa ou da mais devastadora das desilusões. Ao conteúdo que poderia valer-se de anos de pesquisas lunáticas em busca do que – se a lógica fizesse valer – revelaria-se grande decepção.
Pandora era o nome curiosamente engravado em dourado na madeira avermelhada que a revestia, e tal montante de surpresas revelariam-se em somente um amontoado de escritos que finalizariam por revelar o destino do pobre homem que os possuíra, e que em si consistem no âmago desta história, e de todos os infelizes que a rodeiam.

Respirou fundo. Já sentado, com luzes e mente acesas, encontrou com as pontas dos dedos o fecho de seu destino, sem antes roçar com as amadas mãos de sua musa o exterior daquele que viria a revelar-se o caos de um homem, a perdição de gerações ou desperdício desfortuno.
“Que Deus nos ajude”, proferiu por fim antes de abrir seu tesouro.
Continua.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O despertar de Maurício - Segunda Parte.

O despertar de Maurício - Primeira Parte.

De forma geral, Sonia comprovara ser uma boa - talvez "funcional" seja o adjetivo mais apropriado - companhia para Maurício através de todas aquelas singulares noites em que convivera com seu companheiro.
Já há tempos decifrara o terror nas feições dela quando esta o abraçara com unhas penetrantes em seu lombo; o padrão de seu leve corpo em dobrar-se agilmente de forma a jogar seu rosto ruivo acima dos ombros dele, para que este não visse as lágrimas que desciam de seus olhos; a graciosidade com que após deixá-lo para deitar-se (desta vez para o sono e não para o carnal), sempre sola, jamais com seu Mau em seus braços, soltava suspiros de gratidão e prazer.
Ele via, na forma particular dela prendê-lo a si mesma, o desespero de alguém que, como ele, soltou-se de sua órbita natural para cair em um mundo de realidades tão frias e cruéis (como só a realidade consegue ser) que fazem com que a não-realidade seja agradável de tão leviana.
Olhou-a brevemente. A silhueta esbelta de seu corpo de fina cintura sob a parcial escuridão era solene. Sob seus cabelos - longos e lisos, finas linhas de vermelho bronze -, escondia-se o rosto rubro de sardas, o único que Maurício vira até então o qual combinara graciosamente com o fogo emanante das retinas dela, de si mesmo e de seus companheiros. Era bela. Jamais a amaria. Jamais. Porém, era bela.

O dia do ultimato romântico da libertação, da heróica soberba escapada - embelezada por todos os efeitos pirotécnicos e acrobáticos dignos das maiores empreitadas cinematográficas -, daquele dia de verão em que Maurício se perdera de sua colméia para adentrar em um rebanho; o dia dos dias. O dia: Se perdera em sua memória.
Não nos cabe compreender a memória, antes devemos tentar compreender o funcionamento do intelecto. Das analogias diversas que a mente desperta de Maurício incubara para tentar explicar sua própria incubação, a ele era preferida a dos halteres harmônicos. Em seus pensamentos - agora tão inconvenientes, incontroláveis, caóticos, belos, maravilhosos, traiçoeiros, cruéis - sua mente era como um daqueles garfos metálicos usados para ensinar física da ressonância: algo ordinário, que causa pouco mais do que leve fascínio juvenil por repetir o som de um de seus semelhantes quando o outro está a ressoar em sua frequência. Algo repetidor. Frequências repetidas eram sua mente pré-despertar. Após o mesmo, era como se seu haltere fosse então provido de personalidade própria, frequências próprias, caos particular próprio.
Metáforas de halteres talvez explicariam o porquê de, após pouco mais de um ano, a lembrança de seu "dia dos dias" seja em suma um emaranhado de descobertas meramente compreensíveis, de medos alucinantes e de uma breve miragem de um automóvel conversível rumo ao horizonte.

*

Louise era o único cuja presença acalmava Maurício. Possuía pele de um negro opaco e intenso, físico mediano, era alto - algo como dois metros de altura -, e possuía um sorriso que o fazia camuflar-se em garoto: ao mesmo tempo o diminuía e o engrandecia. Maurício o admirava como se admira um objeto tão raro cuja toda e qualquer característica deveria ser estudada, cujo todo e qualquer aspecto deveria causar fascínio. Louise era raro porque era alegre. Era calmo e era tranquilo, como ninguém a seu redor era. Mau tinha a crença secreta de que Louise, em seus momentos de alegria, fazia fugir brevemente pouco do vermelho, característico daquele povo, dos seus próprios olhos, liberando parte do que costumava ser suas janelas da alma, antes de seu próprio e particular despertar. Castanho esverdeado era a cor que Maurício pensara vislumbrar em tais raros momentos, mas jamais perguntara a seu colega quais eram as cores de seus olhos. Às vezes o mistério é mais agradável do que a verdade e sua possível desanimadora realidade.

- Grande Maurício! - Saudou seu colega. Pelo seu tom de voz ja era de se perceber que algo não era normal.
- Louise... Por que você tá aqui tão cedo?
- Vim informar-te um pedido do alto escalão...
Instantaneamente o rosto de Maurício esbranquiçou-se. Seu coração encheu-se do maior dos pesares; seus olhos amearaçam lágrimas.
- Não, cara. Não, não, por favor... Mais um não, por favor não... Por que eu de novo?
Louise perdeu seu doce sorriso. Doía-lhe estar naquela posição, ser ele a informar a seu amigo.
- Você é o cara para esse serviço, sabe disso... Precisam de você nessa... Escute: É um garoto desta vez, um piá pequeno...
Ao som destas últimas palavras, Maurício aterrorizou-se ainda mais, porém nada disse. Não havia por que descontar sua ira em seu companheiro - e desta vez mero mensageiro. Com um olhar que dispensava palavras, Maurício fechou a porta de sua residência para voltar-se a seu leito.
O terror de Maurício é facilmente explicado: Desde sua chegada ao "vilarejo dos despertados", seus governantes acharam nele um particularmente habilidoso professor. Professores são os nomes dados aos infelizes que, incumbidos do igualmente inafortunado dever de servir à comunidade, passam horas defronte aos seus novos cohabitantes, em um processo de limpeza. Basicamente, quando os halteres estão perdidos entre o caos de novas e incontroláveis frequências, o professor tenta proporcionar algum sentido para seu colega. Tenta fazer o recente despertado reconhecer o que está ocorrendo ao seu redor. Maurício sabia pelo protocolo que tal horrível tarefa de combater desordem mental com palavras ocorreria já no dia seguinte, e acima de tudo seria uma criança: as mais imprevisíveis dentre os insanos recém-chegados.

Continua.

domingo, 1 de novembro de 2009

Sentir - Segunda Parte.

Sentir - Primeira Parte.

Deixara de ser berro bélico, era agora obra sinfônica.
Às manhãs, "Laila" era motivo de sorrisos, de fazer roçar a cabeça contra travesseiros e cobertas como felino preguiçoso. Às refeições e aos momentos de concentração era refúgio singelo. Quando dito no ócio, despertava alegrias crescentes, incendiava nele como brasa, fazendo-o sentir-se novamente em seus braços, em seus insaciáveis lábios e dentes.
Envolvera-se nela, em tudo o que ela lhe proporcionava. Brincava em sua matemática platônica: fazia-se "função de Laila", pois nos sorrisos dela, em sua fala e em sua forma de ver o mundo, ele moldava seus próprios sentimentos. Aliás, não os moldava, estes faziam-se perante tais fatores qual girassóis seguem sua estrela, qual folhas soltas percorrem o vento: em harmonia metódica, um ritual já a ele inevitável.
Igualmente brincava consigo sobre a bobeira da qual era agora assíduo. Tolos e infantos eram seus atos, às vezes. Fazia-se um novo homem, com aquele sorriso bobo estampando sua face. Estava perdidamente encantado por sua agora - e talvez não tarde - companheira.

Ciclos faziam-se: seus beijos incitavam-o a desejar aquele profundo olhar dela. Seu majestoso olhar fazia querer beijá-la. Nesta dança repetitiva perdia-se a mente, e a sobriedade de seus pensamentos; como umidade em densa nuvem, condensavam-se suas idéias - antes lineares - e desciam por sua mente em gotas dispersas, deixando-o desnorteado.
No encanto dela, fluía nele tal chuva de aleatoriedades. Ocorria-lhe suas atitudes passadas, ocorria-lhe seus desejos, todo seu pensar. Transpassava-o suas obras preferidas, escritos, músicas, tal quais canções fluiam em tamanho caos em que se perdia a ordem e a destreza em administrar seu próprio consciente.
Divagava neste caos, naquele dia, em seus desenhos, seus tão adorados desenhos. Divagava sobre a vida que predescera Laila, sobre as mulheres que igualmente a predesceram. "Nunca tiveram chance alguma", afirmava para si. Sem saber o porquê, divagava em uma canção particular, que na sua adolescência era objeto de grande fascínio, sobre chuvas e buracos em telhados. Divagava sobre o que viesse a si, já não tinha controle sobre sua mente.

Longe de sua adocicada boca, perdia a noção daquele elemento que antes em sua vida fôra concreto, que por vezes havia sido motivo para sua irritação ou desconcentração, mas cuja constância constara ser definitivamente fiel, e de repente não mais o era: o tempo. No castanho celeste de seus olhos se perdiam as cordas que o atavam à linearidade cronológica. Dias aparentavam semanas; igualmente horas bem aproveitadas o transpassavam com a agilidade inclemente de um forte vento gélido de inverno.
Não sabia ao certo o quanto descorrera entre sua declaração a ela e o presente. Afinal, seria este o que estava por viver? Ou seria um sonho, um maravilhoso sonho de primavera, do qual não se deseja acordar?

Às noites, "Laila" era calmaria; era êxtase e era encantamento.
Naquela madrugada, ele pensava nos belos momentos de seu dia, os quais passara com sua musa. Divagava sobre sua canção da chuva, sobre seus pensamentos em condensação escorrendo-o.
Antes de apagar as luzes de seu quarto de dormir, vislumbrou uma última vez o mundo a cores. Riu para si mesmo, com a ingenuidade de quem conhece uma piada graciosa, e que se contada em voz alta não reproduziria nem de longe todos os seus encantos.
Deitou-se em seu leito com sua mente a cantarolar os versos:
"Estou a arrumar um buraco por onde a chuva entra, e impede minha mente de perguntar-se:
Para onde ela iria?"

Continua.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sentir - Primeira Parte.

Sentir - Segunda Parte.

- De todos eles, você se identificou com a vampira, por quê?
Ele esperava esta pergunta, realmente não era uma revelação comum sua afinidade com a personagem feminina. Ao invés de responder de imediato, olhou-a brevemente e levou seu copo à boca, pensando em o que diria.
Ele poderia, sim, falar sobre como se identificava com tal ser fictício pela forma com que, sob perigo quase físico, a personagem requisitava o pedido para sua entrada em uma residência humana antes de fazê-la. Se identificava por que, desde sempre, sentia a necessidade de ser chamado a entrar, não em casa de outrém, mas sim em seus íntimos, em falar seus sentimentos, em gozar da solone experiência de receber ou não a reciprocidade de seus desejos perante uma mulher.
Poderia discorrer sobre como sentia-se inseguro em relação a ela, especialmente. Sua oratória privilegiada o daria palavras para descrever sua forma própria de admirá-la.
Conseguia ver-se falando sobre como, de uns tempos para então, passou a ter seus cadernos de desenho monopolizados por círculos do azul amarronzado que eram os olhos dela. Como igualmente sua mente encontrava-se monopolizada por também seus sorrisos e suas formas, olhares e feições. Via-se dissertando sobre como seus dias já não eram mais presenciados no real, e sim em um local imaginário de sua mente em que ela estava sempre presente, e quando fechava os olhos para descansar-se era ela quem o visitava em seu sono.
Imaginava como explicaria a forma com que, tola e invariavelmente, ria ou ao menos sorria ansiosamente a qualquer palavra vindo da boca dela; de como os sorrisos dela eram os mais belos presentes que poderia receber em uma vida de condecorações e apreços. Como a mera visão de seus traços fazia com que o mundo de repente tornasse a cores; Como que, quando ela o olhava apreensiva, ele se sentia o mais importante dos homens.
Falaria sobre como, às vezes, tais olhares criavam pequenas – e breves – raízes de esperança em seu coração. Sobre como, nestes momentos, divagava sobre como seria beijar as costas das mãos dela até o alto de seus ombros, como seria dar pequenas mordidas nas laterais de sua maxilar; em como seria o toque de seu busto sobre as costas frias dele, e a sensação do toque dos lábios dela em seu torso e em seu pescoço. Falaria sobre como tais curtos momentos daquela crença estavam tornando-se mais comuns a cada dia, a ponto de darem a ele um gosto de viver nunca antes presenciado, causando-o desejos de dar “bom dia” a cachorros quando saía de casa; falaria sobre como levantava sorrisos pelos cantos de sua boca ao ver casais de mãos dadas, ou ao ver pequenos fragmentos quaisquer em sua rotina que o lembrassem dela.
Em verdade, ele poderia discorrer horas sobre a beleza que ela representava. Sobre como as letras que compunham “Laila” já não eram mais símbolos literários, e sim peças sublimes de um grito de guerra emanado com suavidade, que afastava com sucesso qualquer mal que o pudesse atingir. Sobre como aquela palavra representava a ele um universo de elementos de beleza e misticidade maravilhosos, que nele faziam despertar as mais íntimas alegrias humanas, indescritíveis de tão majestosas.
Poderia discorrer sobre tudo isso e muito mais, pois tais sentimentos já o eram verdade inquestionável, e naturais a ele como o pulsar de seu coração ou o alargar de seu peito ao respirar.
Seu copo já estava à mesa e a água que este continha já estava inerte. Ele não havia falado palavras quaisquer, só a olhava diretamente em seu rosto, com seu olhar passando além dela e além do cenário em que se encontravam, pousando um lugar em que ele teria, sim, a ousadia de proferir todas aquelas expressões que enfim, mal dariam noção de quanto era o seu fascínio por Laila.
Por fim respondeu outra resposta falsa qualquer, sobre desejos vampirescos ou coisa que o valha. Sentiu ódio por si mesmo, mas ódio não era um sentimento que encaixava em qualquer cenário em que ela estivesse presente, e logo sua ira tornou-se apenas arrependimento por não ter a audácia da qual desejava.

Laila veio a ouvir de sua boca aquelas palavras – ou o que restara delas – eventualmente, mas não sem antes o decorrer de intermináveis meses, tempo em que ele presenciou sua Laila em braços de outro, e em que ele mesmo dividiu seus lábios e seu corpo com outras que, a seu ver, mal passavam de transeuntes em sua vida até aquela que o fizesse sentir-se em um mundo a cores novamente. Por vezes chegou a acreditar que esta não precisasse ser Laila, por vezes acreditou em suas mentiras de que era indiferente em relação a ela. Por vezes apaixonou-se.
Além de tudo o que havia dispersado em sua mente para lhe falar, discursou também sobre a inspiração que ela o presenteava, para toda e qualquer obra e atitude que ele realizava, mesmo quando sob a custódia de outras moças. Bebia de sua fonte de inspiração como se bebe do leito da cachoeira que possui a melhor e mais pura das águas, com a naturalidade e a ansiosidade quase feroz de uma criatura de sede incontrolável, e profundo apreço pelo que lhe desce a garganta.
Veio-se a lembrar do dia em que finalmente abriu seu coração a ela por toda a sua vida. Os meses em que carregou o fascínio por aquela mulher foram penosamente passados com um véu de máscaras em seu rosto, fala e olhar, por vezes denso, por vezes em farrapos, quando já exaurida a força de impedir que o resto do mundo soubesse a intensidade de seus sentimentos e de seus anseios. Naquele dia que enfim chegou, como um viajante fadigado, deixou-se soltar aquele fardo que sob suas costas tanto pesava.

Continua.

Dedico este texto a Khaled Hosseini, com sua personagem Laila de A Cidade do Sol.
E também a todos os escritores, que como Hosseini faz com extrema qualidade, criam através de sua arte ricas descrições das emoções humanas.
E naturalmente a todas as Lailas, nossas quedas d’água de infinita inspiração.

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sábado, 19 de setembro de 2009

duas notas de dois e uma de um.doc

Farei-me curto e objetivo. O que menos quero é acordar minha amada ou alguns de meus agora já não tão pequenos pequenos. Algo em minhas memórias despertou-me de meu início de sono, e terei de carregar um par de olheiras e fadiga amanhã para ter a certeza de que farei aqui meu memento bem escrito. Trata-se de um momento em minha juventude, um acontecimento que pode ser considerado comum, porém quiçá o presságio de uma vida mais justa.

Era algum momento de 2008. Havia inscrito-me para um vestibular o qual não poderia aproveitar sua vaga por motivos de idade, e aquele era o dia de sua prova, em algum bairro afastado de minha residência da época em Curitiba. Após a prova, dirigi-me a um terminal de ônibus, não me lembro qual, me lembro apenas de seu caos naquele dia.
A fila para a entrada no terminal por pouco não o circumpletara por completo, de gente jovem de aspecto violento. Pus-me nesta fila, e tentei fazer-me acostumado ao cenário. Lembro-me de que atrás de mim garotas, as quais não aparentavam mais de quatorze ou quinze anos, conversavam demonstrando tal efeito de drogas alucinógenas que só o escutar daquela conversa débil já era estonteante. Uma delas havia perdido o celular. Pouco importara.
Lembro-me de que em certo momento, um ônibus teve de buzinar e dar ímpetos de atropelamento para cima do povo, em busca de uma oportunidade de acoplar suas rampas e portas em um tubo do terminal. Com as portas abertas, recordo-me de que em poucos minutos cerca de quarenta, cinquenta ou cem garotos e garotas pularam por tais para evitar pagarem a passagem.
Quando finalmente cheguei à entrada, podia ver medo e tensão estampados nos rostos dos cobradores da passagem, que nada podiam fazer caso um grupo de criminosos os assaltasse. Lembrara-me de ter duas notas de dez reais na carteira, tirei uma nota e entreguei sem nem vê-la, e ao receber o troco correspondente ao valor de cinco reais, levantei objeção ao funcionário em minha frente.
Serei sincero: Não me lembro das palavras, se é que houveram palavras. Mas me lembro daquele rosto. Suas feições espalhavam-se por toda sua face estampando em letras garrafais “ladrão”, “oportunista”. Seus olhos metralhavam-me como a personificação da espada da justiça. Recebi cinco reais de suas mãos - duas notas de dois e uma de um - amassadas e entregues tal qual veneno a filho de sangue, com um asco, por parte do cobrador, indescritível.
Não pude andar mais que vinte metros. Perguntara-me se eu possuíra anteriormente realmente duas notas de dez reais. Havia as visto na fila com tamanha rapidez que facilmente poderia ter cometido um engano. Além disso, por mais que eu não tivesse dito a verdade, na situação do cobrador seria natural que ele desse o dinheiro, mesmo que relutante.
Retornei ao homem dos olhos de julgamento e perguntei-o se realmente o havia entregado uma nota de cinco. Ao receber a temida resposta negativa, entreguei em olhos de humildade as notas roubadas de dois e de um.
Ah, sim. A palavra ladrão já constava anteriormente no meu dicionário como a de um desmerecedor, de um ser sem escrúpulos, da ralé da sociedade, mas foi somente naquele momento que a senti em realidade.
Talvez seja tal simples equívoco de cifras, que tenho em meu histórico oportunidades corruptas relevadas e opções políticas questionáveis deixadas de lado. Talvez somente um olhar acusador foi o necessário a levar-me hoje a ser a pessoa honesta que sou. Não sou presidente da república, não sou grande personalidade política no quesito influência. Mas sou limpo, e o sou com o orgulho do homem que já viu o reflexo de uma corrupção de moral – uma corrupção por engano, mas ainda corrupção - em sua consciência.
Amanhã terei de ir à câmara e depois fazer outros compromissos de cunho persona publica até bastante tarde. Espero que Fernanda não se deprima por eu chegar a sua formatura tão tarde. Afinal, não posso deixar os olhos daquele cobrador fitarem-me. Não novamente.

Nota publicada por: Fer. Matos
- Encontrei este arquivo entre as pastas de papai. Salve-o contigo, creio que gostará de ler. Não é justificativa para suas atitudes, mas, sinto-me tocada por suas palavras. Papai sempre foi uma pessoa complicada de se entender. Pergunto-me se ele iria se “deprimir” se eu também faltasse a seu enterro. E se estou sendo muito dura com ele.

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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Momento de alegrias e compreensões.

Lembro-me de como era o lanche em minha mão. Em plástico fino, aquele sanduíche natural não era o almoço de que eu precisava, era um marco, um marco das escolhas de saúde que eu havia tomado naquela época. Era ótimo, horrível no paladar, de uma carne de frango sem gosto, mas ótimo de se tatear e de se ver, de se notar e de sentir, a opção de uma vida mais leve.
O cenário era fabuloso. O sol estava na altura exata a iluminar aquele corredor do terceiro andar, através das longas janelas e do piso refleto tal qual lago em calor de verão.
Tenho esta imagem de estar sentado, o tal sanduíche em minha mão direita e água engarrafada – garrafa minha, antiga, não recém-comprada – em minha mão esquerda. De ver os estudantes cruzando o corredor como uma passarela do saber, exibiam em suas faces a maravilha do conhecimento, a aura da sabedoria.
E foi então que contemplei tal momento de luz: A compreensão dos meus caminhos. Pude ver por meus jovens olhos toda a minha vida, e todas as minhas escolhas até então, e todas as minhas sinas. Pude observar as diversas pessoas com quem tive conversas especialmente memoráveis, eventos os quais me fizeram sorrir ou chorar. Meu coração estava como nunca em meu peito, e eu podia sentir seus cortes passados, alguns já em cicatriz, outros procurando ainda cura.
Mas eu estava lá, naquela hora, naquele lugar, e pude sentir todo o fluxo do tempo como se fizesse todo o sentido. Não era porque eu tinha aula de desenho naquele andar, ou porque naquele dia eu precisasse almoçar e um alimento se destacasse especialmente entre outros a mostra. Era porque eu havia condicionado minha vida até ali.
Como foi belo a compreensão! Pude ver todos os traços de memórias levando-me àquela instituição, àqueles meus amigos que tão longe fisicamente estavam mas tão perto em meu coração estavam presentes! Eu pequeno, eu jovem, eu adulto, era somente um eu. Traçado através de tanto tempo a estar naquele momento, observando o sol e comendo um sanduíche natural e bebendo água engarrafada!
E então todas as minhas escolhas receberam a dádiva do perdão, pois eram elas que me levaram até ali, eram elas que me faziam ser eu, mais do que qualquer outra coisa. E naquele lapso da minha rotina – que então pareceu a mais bela das ordens e dos períodos – pude sentir o futuro convidando-me a seu festivo encontro. Mais que isso, pude sentir os traços de carne viva em meu íntimo das dores que eu havia causado e sentido através dos anos, aliviarem-se pela conclusão de que eu era naquele momento, à minha própria forma, completo. Amado, acima de tudo, por mim, que desenhara através de linhas tão sinuosas e embaralhadas, que talvez nem eu mesmo compreendesse seus resultados finais, a vida mais bela. A minha vida. E tudo fez sentido, e tudo fez-se luz.
Raios poderiam partir-me em dois ou três. Naquele momento, meu sorriso não seria quebrado nem pelo mais forte impacto; meu coração, bateria forte e vívido até se tivesse somente a terminal condição de parar sua bateção repentinamente. Eu era completo e perfeito, a meu próprio modo, e nada poderia tirar isso de minha posse.

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domingo, 26 de julho de 2009

Ensaio sobre o mundo de luz.

Existe um mundo além deste que conhecemos. Bastante similar ao nosso, porém cujas pessoas nascentes são diferentes, especiais. Diferentes dos humanos terrestres, estes se ligam fortemente em sentimentos uns aos outros, e carregam em suas falas e atitudes distintas a sabedoria e a riqueza de vidas bem vividas. Andam em passos leves, sobre seu mundo de igualdade. Não há guerras, não há miséria ou maldade. Este é o mundo da luz.

Eventualmente, porém, há um acontecimento mágico. As pessoas de luz enviam para nossa terra de tristezas e morte uma destas pessoas para ventre humano. Nascem e crescem tais enviados, tentando se adaptar ao nosso mundo. Líderes, revolucionários, pessoas brilhantes, pessoas simples, pessoas especiais.

Me recordo de uma pessoa de luz que um dia conheci. Em seu jeito único, apegava-se muito a sentimentos e possuía a mais brilhante das falas. E em seu triste olhar podia-se, com certo empenho, ver o universo que separava a luz de nosso pequeno mundo. Oh, com aquele olhar era possivel vislumbrar a realidade que perdemos de habitar, de pessoas cujas almas merecem o maior dos confortos.

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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Anjos.

- Então - ela hesita por um momento -, é que você não acredita em anjos?
Ele sorri.
- O que estou tentando dizer pra você, é que nunca me importei com essas coisas. Nunca. Nunca imaginei eles existindo ou o que for.
- E?
- E quero dizer que... Bom, que se há anjos, ou criaturas místicas quaisquer, alguma delas está sorrindo agora, chorando de felicidade. Por essa noite. Por o que me foi presenteado. Com certeza.
Ela sorri, passa levemente a língua pelos lábios superiores e o beija rápido mas intensamente.
- Agora, por trás do meu ceticismo, consigo ver, sentir. Isso é algo, algo importante, para mim, para nós. É um nascer do sol.
Ela o beijou novamente. Não entendeu muito do que ele quis dizer, mas não se importava. No fundo, ela também sentia como se algo grande estivesse ocorrendo.

*

Em um outro canto da cidade, um garoto alternava entre sentar no chão apoiado contra a parede roçando a testa e andar de um lado para o outro do quarto como se estivesse perdido.
"Não é mais a mesma coisa. De jeito nenhum. Nunca mais será o mesmo entre nós. Por que ela foi agir daquela forma? O que devo fazer?" Divagava o garoto.
A noite terminou com ele irritado mandando mensagens grosseiras pela internet. E se sentindo satisfeito. Somente para nos dias, semanas, seguintes arrepender-se de suas atitudes e entrar em um estado depressivo.

*

Já em outras atmosferas:
- Quantos grandes amores eu tive? Bom, quantos destes temos direito a ter na vida? - Sorriu de leve o homem.
A mulher com quem conversava era alta, de corpo bonito e rosto bem conservado. Era a situação com a qual ele imaginava desde jovem. Uma vida de dedicação, esforços, uma vida dentro das regras, para crescer em um homem atraente, de sucesso, desejado, em uma festa de alta sociedade, com as melhores mulheres e todas à sua "escolha".
- Eu diria que três. - Respondeu a moça.
- É, essa é uma pergunta interessante. Eu ensaiava respostas para essas perguntas quando mais moço. Creio que pensar em um amor perdido como um número a mais em algum contador que se usa em conversas com mulheres deve ser reconfortante. - Sorriu de leve, com ironia. - Mas acho que talvez zero seja a resposta apropriada. Fui solteiro toda a minha vida.
- Solteiro toda a sua vida? - Perguntou a moça com uma mistura de "quase surpresa" com graça.
- Se estou com alguém, apaixonado, ou o que for, mas não posso mostrar meu eu verdadeiro para essa pessoa, qual é o nome disso? Eu diria que é solteirice. Nada mais que solteirice, e não deve ser amor, um grande amor.
Ela sorriu. Ele sabia que a tinha conquistado com aquelas palavras. Por mais que este não tenha sido seu objetivo em dizê-las.

*

O homem termina sua janta e então desce as escadas para a sala de estar.
"Como se acabou tão rapidamente? Não posso culpá-la, concordo que não era mais como antigamente, mas ainda assim. Como?" Pensava.
Estava nos seus vinte e tantos anos. Em uma casa de um milhão de reais. Vazia. Escura.
Cadê os anjos agora, que o amor se foi? Estão o quê? Brigando? Tristes?
Bebeu um copo de whiskey, só para lembrar de quanto odiava tal bebida. Tragou um caximbo. Andou um pouco evitando o sono. E então foi dormir.

*

O menino acorda com o aviso sonoro de uma mensagem de texto em seu celular.
"Amo você. Muito..."
Sentiu-se a pessoa mais feliz do mundo. Queria manter aquele momento para sempre. Aquele sentimento, para sempre.

*

Todos são o mesmo garoto-homem, onde o tempo não existe. "Onde estariam os anjos", ele se perguntava sazonalmente em sua vida.
Onde?
Onde estariam os anjos?

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sexta-feira, 10 de julho de 2009

The man who sold the world*.

A burguesia é certamente a mais egoísta das drogas.
Denis estava naquele momento, alucinando com outras que não eram a já citada, e sabendo que para voltar à mesma este teria de esquecer aqueles dias de loucuras alucinógenas, enterrá-los no passado. Mas naquela hora ele estava apenas aproveitando seus efeitos.
Em algum ponto nosso protagonista notou que as pessoas à sua volta estavam falando de suas infâncias, sobre como foram mágicas e incríveis e inigualáveis. Refletiu então que ele não havia tido uma infância tão boa, aliás, sua infância foi bastante triste, vazia.
Denis voltou em pensamento à escolinha onde estudara quando tinha poucos anos de vida. Lembrou-se das crianças ao seu redor, de como era sozinho no mundo, e então recordou-se de que em certos momentos, quando se sentia a criatura mais desprezível já criada por Deus ou quem for que fosse, Denis garoto subia em uma grande árvore de sua escolinha, e então observava. Observava a seus colegas como um anjo do desprezo, procurando a menor falha, a menor tristeza, e as encontrava. Sabia decerto onde ver as crianças felizes chorando ou lamentando. Quando ele se cansava, afinal, se sentia poderoso, e dizia baixinho para si mesmo: "Sou o mais poderoso dos homens". Pois se sentia assim.
*
Denis formou-se bacharel com louvor, e como previsto teve de deixar sua vida de bohêmio para trás, e todas as suas especiarias. Com trabalho e mente afiados, criou fortuna a partir de uma série de empresas criadas em sua liderança, de diversos ramos da tecnologia moderna.
Certa vez, Denis já homem de grandes especialidades, viu-se tornar um empreendedor no frio negócio de armamentos, o que não o encomodava particularmente.
Em uma transação com um grande consumidor de suas atrocidades, Denis foi presenteado com um vídeo de suas armas em ação, pulverizando aldeias de um povo de região qualquer da África.
O empresário chegou à sua luxuosa residência aquela noite com uma vontade estranha, e altamente ansioso. Cumprimentou sua mulher, seus filhos, e dirigiu-se a seu jardim particular.
Não havia ali grandes árvores, sequer altos arbustos. Denis sentou-se em um banco de madeira, e ligou seu gadget de bolso para assistir ao vídeo de suas criações em ação.
Entre as incontáveis mortes e a destruição que assistia, sussurrou para si mesmo: "Sou o mais poderoso dos homens".
E era. Naquele momento ele era.

*"O homem que vendeu o mundo", trecho da música homônima de David Bowie.

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domingo, 14 de junho de 2009

Aquela velha situação.

Ah, ele sabia de todos os sintomas. Ele até sabia como tratá-los.
Naquela tardezinha de sábado ele ligou seu computador e iniciou uma música, alegre porém não excitante, parada porém não depressiva, e ligou MSN, Orkut e toda e qualquer forma de pseudo-comunicação a seu alcance.
Às vezes nos encontramos velhos demais para dizer a deslavada mentira de que "feriados me deixam depressivo". O que podemos fazer? Talvez alguns não saibam tal resposta, mas ele sabia - ou achava que sabia -, portanto, para não chegar ao corajoso ato de disparar um projétil entre os próprios olhos, começou sua pequena rotina.
Riu, "conversou", assistiu a um filme ou dois, e evitou ao máximo pensar efetivamente no que deveria ser pensado, tentando evitar a melancolia.
Mas algo o dizia que ele sabia, estava arruinado.
Não se sentia mais uma pessoa, um ser existente. O que havia acontecido à sua vida? Pensou.
"Como tudo mudou, de uns tempos pra cá", dentre outras afiadas sanidades.
O tempo não parecia passar, sua vida, não parecia passar.
Clicou no seu programa editor de texto e digitou as seguintes palavras:

Não, não estou morto.

Nada menos, nada mais. E as observou por alguns minutos.
O que podemos fazer? Afinal, era feriado.

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terça-feira, 4 de novembro de 2008

O despertar de Maurício - Primeira Parte.

O despertar de Maurício - Segunda Parte.

Como todos a sua volta, Maurício era feliz.
Sentia os pães de queijo quentes em sua mão naquela manhã, como sentia todos os dias, e senti-los o dava fome. Com fome Maurício se alimentava, na mesma mesa de sempre, com a mesma companhia de sempre, os mesmos sorrisos, as mesmas conversas. Maurício podia até prever as falas das suas colegas, o que não o impressionava; porém, naquele momento, nosso protagonista se viu fazendo uma pergunta que não lhe era de natural, mas que saiu dele como a mais certa de todas as coisas:
- Por que você está sorrindo?
- O que? - Disse sua colega, mantendo o mesmo sorriso inerte. - Porque sim.
Maurício não atingiu compreensão. Indagava com sinceridade:
- Sério, por que você está sorrindo? Aliás, por que vocês todas estão sorrindo?
Para ele aquelas perguntas significavam uma ofensa, ou mesmo se fossem verdade significariam um grande choque, mas elas mal pareciam ouvir-lhe, mantinham suas expressões débeis de felicidade. Foi quando aconteceu.
Os poucos segundos em que Maurício se deu conta da alegria insana que o rodeava foram o suficiente a desencadear nele uma onda de questionamentos.
Maurício olhou às suas colegas novamente e começou a dissertar:
- Qual é o motivo disso tudo?... Vocês não... Não sentem um vazio, um vazio enorme em toda esta colméia em que vivemos?
Não conseguia segurar seus pensamentos. Olhava à sua volta e o que antes tinha por normal agora era absurdo, de tudo sua mente questionava "como?", "por quê?". Varreu os ínfimos de sua memória e pensou em todas as vidas que tinha notícia, no vazio de tudo, na incerteza e na falsidade. Discursava agora feito um louco para quem estivesse perto, para o horror de suas colegas, mas sem tirar o sorriso demente de suas faces.
Maurício realizava tal revelação que não viu no espelho do refeitório seus olhos queimando em vermelho vivo com aquele novo homem que surgia dentro dele. Tampouco pôde ouvir os automóveis correndo loucamente pela rua transversal à do refeitório. Quando enfim chegaram, porém, ouviu-se um estrondo.
- Maurício das Neves! Maurício das Neves! - Gritava um agente de corpo pesado que entrara correndo pela porta. - Temos provas de que a Infecção o teve como vítima! Por favor, identifique-se!
Mais agentes entravam depressa pela porta, e em todos se via um grande punho demarcado em seus macacões, com os escritos "A Força Estatal". Tais agentes agora seguiam dizendo:
- Para a proteção sua e de seus colegas, identifique-se!
Maurício sentia estar em um pesadelo. Não só a Força o fazia estremecer, como a idéia da Infecção. Mas era algo além. O que descobrira naqueles passados minutos o transformara como nada antes o fez. Chegou a perguntar-se "seria isso a Infecção?", mas não pôde terminar seu raciocínio. Um dos agentes que virava rostos de jovens presentes com sua mão e os mirava, juntamente a mirar uma foto recém-impressa de Maurício, teve a sua atenção desviada por uma jovem, a que havia sido perguntada se era feliz. Ela nada fez além de apontar com braço estendido a Maurício.
- Ele está aqui! Aqui! - Gritou o agente.
Homens de roupas escuras e máscaras de gás, os agentes da Força, correram a Maurício, que viu ser jogado sem hesitação de rosto a uma mesa, abrindo um rombo em sua bochecha esquerda. Via o sangue escorrer por sua face, mas sabia que não importava, estava infectado, estava morto.

O arrastamento até um dos furgões que diziam "A FORÇA ESTATAL" foi deveras rápido, e Maurício viu portas de aço fechar em sua frente. Voltou seu rosto ao chão, com o único pensamento repetido: "eu vou morrer, eu vou morrer". Ao notar que o automóvel não estava se movendo, olhou para frente e viu a cena mais amedrontadora de sua vida: A rua, geralmente calma, estava bloqueada em ambos os sentidos por automóveis incendiados; e os agentes Força, que Maurício podia observar através da grade de contenção do veículo, estavam paralisados, mas discutiam:
- Devemos tentar?
- O automóvel pode resistir... E você sabe que o espécime não deve ser capturado.
- É arriscado.
- Eu sei... Mas é necessário.
Maurício não sabia o que pensar. "Tentar o que? Passar pelos automóveis incendiados? Era suicídio! Espécime? Do que estavam falando?"
Sentia taquicardia no peito. Sentia ânsia. Sentia raiva, pressa, medo. Quis fechar os olhos e esperar aquele pesadelo horripilante acabar. Foi quando ouviu o ronco do motor e sentiu o movimento do furgão.
"Loucos!" - Pensou. Mas nada disse, não houve tempo nem voz. Ao chocar o veículo aos carros incendiados o impulso foi tamanho que Maurício voou de encontro à tela de proteção do furgão da Força. Desmaiado, não pôde ver os homens de rostos sérios, de uma seriedade nunca antes presenciada, arrombarem o veículo para seu resgate. Tampouco pôde ver seu transporte para longe de sua cidade - ou colméia, como este a descreveu mais cedo no mesmo dia - por gente nobre que beijava seu rosto, gente que deixava cair água dos olhos e que visava serenidade.
- Mais um salvo, Marcelo. Mais um salvo. - Falou do carro o homem de olhos vermelho-fogo.

Continua.

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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Márcio - Parte 2.

II - Consequências e caos.

Precisamente três dias se passaram desde a morte de Henry, e o bar da nossa estória ainda continha aquele clima fúnebre que diz "coisas aconteceram, mas não queremos falar do que houve"; quando então param dois veículos SUV de cor preta na calçada, abrindo as portas rapidamente.
De dentro dos tais veículos saem oito homens de ternos pretos e aparência saudável. O mesmo atendente, que agora continha aquele olhar triste de que tirou uma vida, olha para os homens e não fala nada, só observa. Ele era conhecido não só pela sua já citada calma, mas pela sua bravura.
Nunca em toda a história se viu crime de vingança com tão poucas palavras: armas sem silenciador esbanjavam ironia em todos aqueles assassinatos silenciosos. De um a um os clientes iam morrendo sem abrir a boca, deveriam estar se perguntando o que estava acontecendo, ou se iriam também ser mortos.
Sapatos e paletós cruzaram o ambiente deixando somente medo e corpos, corpos sem vida.
O atendente do bar observava calmamente, havia medo em seu corpo, mas não em seus olhos castanho-amarelados, que estiveram fixos até a rajada de projéteis o atingir no peito.

Poucos minutos depois uma casa nas redondezas é visitada por um dos SUV, que desembarca um dos homens de terno. Este entra rapidamente e bate à porta, vendo-a deslizar em sua frente, estava aberta, aquela era uma casa com criança.
O homem entra rapidamente à casa, aparenta ter quarenta e poucos anos, e tem um olhar suave, daquele que quando se vê se pensa "deve ser uma boa pessoa"; e olha para a mulher assustada à sua frente. Levanta um revólver ao peito da mulher.
- Quem é o senhor? Pode levar tudo, só não nos machuque. - A mulher estava começando a chorar, tremendo e aparentando nervosismo.
O assassino olha à sua direita, um garoto estava ali observando. Não havia muito que fazer. Com dois tiros o peito da mulher estoura e logo após a sua cabeça.
Passos rápidos e o homem de olhar suave sai da casa e entra no automóvel:
- A porta estava aberta, não havia nenhuma criança, não é? Porque as ordens eram para matar to...
- Não havia mais ninguém. - Responde decidido.

Na casa foi deixado o garoto Márcio, nosso protagonista de então 7 anos, que ficou abraçado, chorando, com o que tinha sido sua mãe, até que foi puxado para longe por um policial, sem cerimônias. Como foi puxado de sua mãe falecida, da mesma forma foi tirado de sua casa, de sua vida. Pelos seus olhos castanho-amarelados calmos, herdados de seu pai, Márcio guardou as piores lembranças daquele dia, quem sabe até a sabedoria de nunca confiar em um olhar suave.

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domingo, 27 de julho de 2008

Márcio - Parte 1.

I - O antes.

Um homem chega cambaleando ao balcão e diz ao atendente:
- Eu... É... Eu levantei a cerveja assim - o homem representa a ação levantando a garrafa vazia, estava muito alcoolizado - e o garçom fez que não... Não sei o que... Não importa... Me dá uma cerveja.
O atendente olha com um olhar calmo, pacífico:
- O senhor já bebeu o bastante, o que acha de ir embora descansar?
- Mas eu quero uma cerveja! Olha, eu não tou dirigin... Só me dá uma cerveja!
- Amigo, você já bebeu bastante, não vou servir mais a você, não quero problemas.
- Mas o senhor! O senhor está sendo incon... Inconsequente comigo!
- Olha o cara! Falando bonito pra se fazer de sóbrio! - Exclamou um dos clientes do bar.

O homem alcoolizado aparentava ter 20, 22 anos de idade, mas mal se aguentava em pé pela embriaguez. Olhou rapidamente para o indivíduo que havia falado, e voltou novamente os olhos ao atendente:
- Você não sabe quem eu sou, hein! Me deixa comprar essa cerveja logo! - E ao falar isso segura o braço esquerdo do atendente, que estica sua mão esquerda para dentro de uma gaveta ao lado, tateando à procura de algo.
- Amigo, não quero problemas, saia do bar. - Não havia nervosismo em sua voz.
- Você não entende, cara, não entende! Eu só quero a cerveja! - Falou o alcoolizado, mal conseguindo manter o olhar fixo. Este então levanta a garrafa que havia deixado no balcão, movimentando-a agressivamente contra o atendente, e continua - Me dá essa cer... Me dá uma cerveja, cara!
- Eu peço que você se afaste do balcão! - Falou o atendente, já com um revólver em mãos.
- Pra que tirar essa arma? Eu só quero um pouco... quero um pouco de respeito!

Não se pode saber se o homem iria jogar a garrafa à sua frente, ou se iria parti-la na cabeça do atendente, quando ele movimentou rapidamente o seu braço um tiro ecoou no recinto, e o homem caiu para trás sem vida, com a marca do tiro no peito.
Sangue, gritos horrorizados, medo, pessoas desesperadas.
Quando chegaram os policiais foram ouvidos depoimentos de várias pessoas, e concluído que se tratava mesmo de um caso de legítima defesa; porém, pelas roupas formais e olhares frios dos homens que vieram buscar o corpo do tal Henry - sua identidade foi descoberta pela polícia - esta estória estava longe de acabar.

*Nota: "Márcio" é uma estória seriada cronologicamente escrita como um conjunto de curtas-metragens, é o primeiro escrito do Divagações que não é puramente literário; e, para se ter boa idéia do que foi imaginado para a estória, o melhor é ler como se você, leitor, estivesse vendo um filme, um filme fragmentado, e este fosse o seu roteiro.

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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Dorme agora. É só o vento lá fora.*

“Olhos claros como o brilho da lua”.
...
“Mãos suaves cujo toque possui uma magia inexplicável”.
...
“Bochechas vermelhas que suaves se tornam pelo beijo enamorado”.

Logo que terminara o seu poema o garoto levanta-se em um salto e começa a andar. Havia um “quê” de conhecido naquelas frases delicadas, algo como um breve dejà vú.

Mãos abanam um cumprimento rápido à moça conhecida, ao passar por uma casa de muros verde-lima. Mais pessoas cumprimentadas e mais sorrisos abertos em direção ao garoto. Algo estava estranho naqueles sorrisos.

O garoto apressa o passo para chegar logo à casa de sua amada, entregar o tal poema, escutando respirações ofegantes de si.

Mais um rosto conhecido a ser cumprimentado, mais um “olá” com o famoso gesto de mão; o menino agora nota o estranho nos sorrisos, são sorrisos inertes, quase débeis.

Mais respirações ofegantes. Queria chegar rápido à sua menina, ver o sorriso recebido, o mais gratificante de todos os prêmios.

“Um momento que lembrarei para sempre. Essa rua, essas palavras”. Pensa o garoto. "Para sempre".

Seus olhos miram suas mãos à procura da carta a ser entregue. Desvanecera! Onde estaria?

Olhos rápidos, aparentando loucura, cruzam todos os lados, não se acham cartas, só branco, nada mais que branco.

Respiração ofegante se torna mais e mais alta. Não estava mais a correr, não via mais a sua direção ou a rua.

Som de choro breve e palavras distantes: “É um mal terrível, porém não há nada a fazermos”.

Algo não estava certo, algo não se encaixava.

Boca aberta e gosto de pílulas pela garganta.

“Basta, agora basta. Durma um pouco”.

O garoto atemporal queria saber o que estava acontecendo. Queria saber para onde teria ido seu poema ou seus conhecidos, queria saber por que suas mãos estavam tão secas e fracas, mas algo o impedia de pensar, algo o estava cansando.

“Hora de dormir”.

Ele queria entender tudo, tudo o que estava passando, mas estava cansado. Precisava de algum tempo de sono, somente algum tempo de sono. E tudo faria sentido. Só algum tempo de sono...

* Legião Urbana - Pais e Filhos.
**Nota: Para quem não entendeu nada, mas nada mesmo deste conto, ofereço uma interpretação nos comentários do mesmo.

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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Dissertação para tempos inferiores - Terceira Parte.

Primeira Parte.
Segunda Parte.

Falei tanto de vocês e não falei de nós. Basicamente a solução para os problemas de seu modo de produção foi que a hereditariedade seria cortada completamente, sabe. Por exemplo, hoje um casal pode ter filhos tranqüilamente, mas os filhos não são propriedade e escolhas deles, são do Estado Maior. É um mundo justo sabe, o cidadão recebe seu cargo, seu capital e seu prestígio através de somente suas próprias conquistas. Tenho pena somente dos marginais, esses são os que acabam por ser considerados sem capacidade para trabalho, meu padrinho (estudante mais velho que aconselha um mais novo) diz que ao tirar o direito de trabalho de um homem ele está se tornando um bárbaro, mas se isso realmente é anti-ético é só questão de tempo até mudarem para uma nova legislação que seja ética para com os marginais, pois como nossos mestres dizem o nosso Estado é completamente maleável, e por isso que ele é tão correto.
Povo de 2010, há uma palavra de sua época que diz muito sobre o que está ocorrendo por aqui: conspiração. Pelos grandes corredores e pela comunicação inter computadores cada vez mais e mais há mensagens antigoverno, antiestado, sabe, que dizem que nossa ração é cheia de antidepressivos que nos debilitam mentalmente e que a vida fora de família é somente para fortalecer o Estado. De um lado temos revolucionários querendo mudanças e de outro nossos mestres falando que isso tudo é passageiro, já eu acho na realidade que não há perfeição, não há sociedade perfeita, então mesmo essa tão bem aperfeiçoada terá de lidar com algumas revoluções periódicas, mas essa é só minha opinião.
Nos dizem em aula que em sua época turmas chegavam a ter menos de 50 alunos, incrível, e que todos os alunos, mesmo os mais e os menos inteligentes, iam para a mesma sala de aula, não eram separados, me pergunto como isso é possível! Atualmente há uma taxa de aptidão mental, onde eu tirei 74 e acabei indo para a turma de nível 4 (ao total são 5 níveis) e depois disso você recebe uma numeração, como já disse sou o 68, de 430 alunos. Dizem que o maior símbolo da perfeição de nossa sociedade é a capacidade intelectual dos estudantes, mas acredito que na época de vocês, alunos de 8 anos (como eu) sabiam tudo o que eu sei, talvez até mais.

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