Atenção: Este texto não foi passado por nenhum instrumento de censura e pode constar na lista Index Librorum Prohibitorum*.
Digamos que um dia eu afirme ter visto unicórnios. É irrelevante se eu vi ou não, eu convenço pessoas de que vi.
Isso é questionável?
Afirmo então acreditar na existência – impossível de se provar – dos unicórnios. É irrelevante se eu acredito ou não, eu convenço pessoas a acreditarem também.
Isso é questionável?
Logo, eu clemo que os unicórnios são superiores a nós humanos, são seres míticos, e que devemos idolatrá-los. Acreditando ou não eu nisto, faço com que outros acreditem.
Isso é questionável?
Passo a fundar locais de adoração aos unicórnios, funcionando em conjunto com a sociedade em volta dos mesmos. Trazendo cada vez mais pessoas ao culto.
Isso é questionável?
Afirmo que para o mantimento de tais estabelecimentos é necessária a contribuição monetária dos indivíduos os quais participam de seu culto.
Isso é questionável?
Não há prestação de contas, o capital pode vir a tornar-se excessivo.
Isso é questionável?
Em tais estabelecimentos, pessoas – que podem ou não acreditar em o que estão a fazer – são nomeadas por mim portadores da voz dos unicórnios, e tal classe social diferencia-se do cidadão comum e mesmo do participador do culto.
Isso é questionável?
Além de nomear os portadores de voz, também me sinto no direito de afirmar escritos de minha escolha como sagrados dos unicórnios. Acreditando ou não nesta identidade sagrada.
Isso é questionável?
Regras são criadas através da palavra – oral ou escrita – que digo serem dos unicórnios. Tais regras configuram a contribuição financeira ao culto como regra e percentagem da renda do membro; e regularizam o seguir de dogmas, verdades absolutas que não devem ser questionadas.
Isso é questionável?
Os dogmas servem como julgamento das atitudes dos humanos.
Isso é questionável?
As pessoas as quais nomeei serem portadores da palavra dos unicórnios são, por decisão minha, obrigados a manter uma vida sem uniões conjugais públicas. Sendo tal decisão para manter a herança destes como capital para meu culto ou não.
Isso é questionável?
Tais pessoas passam então, por não poderem satisfazer-se sexualmente com cônjugues legítimos, a abusar sexualmente de jovens de diferente ou mesmo sexo.
Isso é questionável?
Protejo tais pessoas do código judicial da sociedade de fora do culto aos unicórnios.
Isso é questionável?
Por apreciação a esta proteção, a recrio com o nome de Liberdade Religiosa, protegendo a privacidade de legalidades ou ilegalidades que ocorrem na adoração aos unicórnios.
Isso é questionável?
O culto se passa para a maioria da população. A palavra “unicórnios” passa a ser gravada com letra inicial maiúscula. Torna-se natural de um membro da sociedade ser adorador dos Unicórnios.
Isso é questionável?
O costume da crença passa a replicar-se hereditariamente. Crianças sem poder de decidir judicialmente sobre si mesmas são criadas na esfera do culto aos Unicórnios.
Isso é questionável?
Além das crianças, também convertemos povos indígenas para o culto.
Isso é questionável?
Questões científicas da sociedade, trazidas a tona por não-membros ou membros do culto entram em conflito com os dogmas estabelecidos. Portanto eu inicio um movimento público contra tais cientistas.
Isso é questionável?
Este movimento torna-se violento.
Isso é questionável?
A esfera já citada do culto aos Unicórnios engloba também escolas, colégios e universidades, mesmo estando em conflito dogmático direto com a ciência.
Isso é questionável?
Do dia para a noite meu culto dos Unicórnios ganha proporções multicontinentais. Filiais de meus estabelecimentos abrem-se em todos os cantos do mundo humano.
Isso é questionável?
O capital que gira em minha instituição é exagerado. Sobra-se dinheiro de todos os lados, e não devolvemos este dinheiro para a sociedade.
Isso é questionável?
Interesses de capital se acumulam, financiamos empresas, instituições, ideais, partidos políticos.
Isso é questionável?
Conflitos de interesses causam conflitos armados, inicio guerras em nome dos Unicórnios.
Isso é questionável?
Por fim, a ciência sobressalta seus impedimentos por mim criados. A sociedade não tolera mais a perseguição às pessoas do saber. A perseguição acaba, mas não há justiça feita a seus antigos promovedores.
Isso é questionável?
Além da justiça não ser cumprida, as escolas, empresas, e centros de conhecimento em geral geridos ou financiados por meu culto mantêm-se em funcionamento. Mantêm-se, naturalmente, conflitos de idéias em tais locais.
Isso é questionável?
Todo o capital do mundo é taxado de impostos, porém não o nosso.
Isso é questionável?
Com a taxação deste capital seria possível um retorno à sociedade, benfeitorias às comunidades. Porém isso não ocorre. Além disso, uso este dinheiro livre de impostos para financiar organizações de terceiros, e algumas minhas, e fazemos fortuna.
Isso é questionável?
Enfim estamos no século 21: Pessoas só são responsáveis por suas atitudes a partir dos 16 ou 18 anos, variando pela legislação nacional, mas ainda introduzo idéias em cabeças de crianças, e rituais de meu culto antes das mesmas possuírem a liberdade de escolher sua participação ou não; Meu culto age em países de grande miséria, e o capital que naquele gira ainda não passa por impostos, e ainda atuo por regras de recolhimento rígido dos membros de meu culto; Meu culto ainda entra em conflitos com a ciência, mesmo que esta já tenha conseguido explicar muito do funcionamento do universo e da vida, e ter comprovado errado cientificamente diversos dogmas por mim e meu culto apresentados; O capital do culto aos Unicórnios ainda financia instituições de conhecimento e corporações, e além disso tais organizações geram lucro ao mesmo; A ética ainda é colidida por meu culto, continuamos a julgar pessoas por dogmas por nós mesmos criados, direta ou indiretamente.
Isso é questionável?
Onde está a linha? O que está a ponto de ser julgado certo ou errado?
O quanto de tudo isso pode ser questionado? Mas além disso, o quanto deve ser questionado?
É preciso explicar a metáfora? Creio que não. Seguidores e devotos de "unicórnios" estão por todos os lados, e pessoas e organizações que se aproveitam destes seguidores também. Muito além de personagens históricos ou atuais, sou a personificação do medo primordial - do fim existencial -, da solidão e da depressão humana.
* Index Librorum Prohibitorum: Lista de publicações proibidas pela inquisição por heresia, "deficiência moral", "sexualidade explícita", "incorrecção política" etc. Contém obras de Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Nicolau Maquiavel, René Descartes, Rousseau, Montesquieu, Voltaire, entre outros; abolida em – pasmem – 1966.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009
terça-feira, 4 de novembro de 2008
O despertar de Maurício - Primeira Parte.
O despertar de Maurício - Segunda Parte.
Como todos a sua volta, Maurício era feliz.
Sentia os pães de queijo quentes em sua mão naquela manhã, como sentia todos os dias, e senti-los o dava fome. Com fome Maurício se alimentava, na mesma mesa de sempre, com a mesma companhia de sempre, os mesmos sorrisos, as mesmas conversas. Maurício podia até prever as falas das suas colegas, o que não o impressionava; porém, naquele momento, nosso protagonista se viu fazendo uma pergunta que não lhe era de natural, mas que saiu dele como a mais certa de todas as coisas:
- Por que você está sorrindo?
- O que? - Disse sua colega, mantendo o mesmo sorriso inerte. - Porque sim.
Maurício não atingiu compreensão. Indagava com sinceridade:
- Sério, por que você está sorrindo? Aliás, por que vocês todas estão sorrindo?
Para ele aquelas perguntas significavam uma ofensa, ou mesmo se fossem verdade significariam um grande choque, mas elas mal pareciam ouvir-lhe, mantinham suas expressões débeis de felicidade. Foi quando aconteceu.
Os poucos segundos em que Maurício se deu conta da alegria insana que o rodeava foram o suficiente a desencadear nele uma onda de questionamentos.
Maurício olhou às suas colegas novamente e começou a dissertar:
- Qual é o motivo disso tudo?... Vocês não... Não sentem um vazio, um vazio enorme em toda esta colméia em que vivemos?
Não conseguia segurar seus pensamentos. Olhava à sua volta e o que antes tinha por normal agora era absurdo, de tudo sua mente questionava "como?", "por quê?". Varreu os ínfimos de sua memória e pensou em todas as vidas que tinha notícia, no vazio de tudo, na incerteza e na falsidade. Discursava agora feito um louco para quem estivesse perto, para o horror de suas colegas, mas sem tirar o sorriso demente de suas faces.
Maurício realizava tal revelação que não viu no espelho do refeitório seus olhos queimando em vermelho vivo com aquele novo homem que surgia dentro dele. Tampouco pôde ouvir os automóveis correndo loucamente pela rua transversal à do refeitório. Quando enfim chegaram, porém, ouviu-se um estrondo.
- Maurício das Neves! Maurício das Neves! - Gritava um agente de corpo pesado que entrara correndo pela porta. - Temos provas de que a Infecção o teve como vítima! Por favor, identifique-se!
Mais agentes entravam depressa pela porta, e em todos se via um grande punho demarcado em seus macacões, com os escritos "A Força Estatal". Tais agentes agora seguiam dizendo:
- Para a proteção sua e de seus colegas, identifique-se!
Maurício sentia estar em um pesadelo. Não só a Força o fazia estremecer, como a idéia da Infecção. Mas era algo além. O que descobrira naqueles passados minutos o transformara como nada antes o fez. Chegou a perguntar-se "seria isso a Infecção?", mas não pôde terminar seu raciocínio. Um dos agentes que virava rostos de jovens presentes com sua mão e os mirava, juntamente a mirar uma foto recém-impressa de Maurício, teve a sua atenção desviada por uma jovem, a que havia sido perguntada se era feliz. Ela nada fez além de apontar com braço estendido a Maurício.
- Ele está aqui! Aqui! - Gritou o agente.
Homens de roupas escuras e máscaras de gás, os agentes da Força, correram a Maurício, que viu ser jogado sem hesitação de rosto a uma mesa, abrindo um rombo em sua bochecha esquerda. Via o sangue escorrer por sua face, mas sabia que não importava, estava infectado, estava morto.
O arrastamento até um dos furgões que diziam "A FORÇA ESTATAL" foi deveras rápido, e Maurício viu portas de aço fechar em sua frente. Voltou seu rosto ao chão, com o único pensamento repetido: "eu vou morrer, eu vou morrer". Ao notar que o automóvel não estava se movendo, olhou para frente e viu a cena mais amedrontadora de sua vida: A rua, geralmente calma, estava bloqueada em ambos os sentidos por automóveis incendiados; e os agentes Força, que Maurício podia observar através da grade de contenção do veículo, estavam paralisados, mas discutiam:
- Devemos tentar?
- O automóvel pode resistir... E você sabe que o espécime não deve ser capturado.
- É arriscado.
- Eu sei... Mas é necessário.
Maurício não sabia o que pensar. "Tentar o que? Passar pelos automóveis incendiados? Era suicídio! Espécime? Do que estavam falando?"
Sentia taquicardia no peito. Sentia ânsia. Sentia raiva, pressa, medo. Quis fechar os olhos e esperar aquele pesadelo horripilante acabar. Foi quando ouviu o ronco do motor e sentiu o movimento do furgão.
"Loucos!" - Pensou. Mas nada disse, não houve tempo nem voz. Ao chocar o veículo aos carros incendiados o impulso foi tamanho que Maurício voou de encontro à tela de proteção do furgão da Força. Desmaiado, não pôde ver os homens de rostos sérios, de uma seriedade nunca antes presenciada, arrombarem o veículo para seu resgate. Tampouco pôde ver seu transporte para longe de sua cidade - ou colméia, como este a descreveu mais cedo no mesmo dia - por gente nobre que beijava seu rosto, gente que deixava cair água dos olhos e que visava serenidade.
- Mais um salvo, Marcelo. Mais um salvo. - Falou do carro o homem de olhos vermelho-fogo.
Continua.
© Todos os direitos reservados.
Como todos a sua volta, Maurício era feliz.
Sentia os pães de queijo quentes em sua mão naquela manhã, como sentia todos os dias, e senti-los o dava fome. Com fome Maurício se alimentava, na mesma mesa de sempre, com a mesma companhia de sempre, os mesmos sorrisos, as mesmas conversas. Maurício podia até prever as falas das suas colegas, o que não o impressionava; porém, naquele momento, nosso protagonista se viu fazendo uma pergunta que não lhe era de natural, mas que saiu dele como a mais certa de todas as coisas:
- Por que você está sorrindo?
- O que? - Disse sua colega, mantendo o mesmo sorriso inerte. - Porque sim.
Maurício não atingiu compreensão. Indagava com sinceridade:
- Sério, por que você está sorrindo? Aliás, por que vocês todas estão sorrindo?
Para ele aquelas perguntas significavam uma ofensa, ou mesmo se fossem verdade significariam um grande choque, mas elas mal pareciam ouvir-lhe, mantinham suas expressões débeis de felicidade. Foi quando aconteceu.
Os poucos segundos em que Maurício se deu conta da alegria insana que o rodeava foram o suficiente a desencadear nele uma onda de questionamentos.
Maurício olhou às suas colegas novamente e começou a dissertar:
- Qual é o motivo disso tudo?... Vocês não... Não sentem um vazio, um vazio enorme em toda esta colméia em que vivemos?
Não conseguia segurar seus pensamentos. Olhava à sua volta e o que antes tinha por normal agora era absurdo, de tudo sua mente questionava "como?", "por quê?". Varreu os ínfimos de sua memória e pensou em todas as vidas que tinha notícia, no vazio de tudo, na incerteza e na falsidade. Discursava agora feito um louco para quem estivesse perto, para o horror de suas colegas, mas sem tirar o sorriso demente de suas faces.
Maurício realizava tal revelação que não viu no espelho do refeitório seus olhos queimando em vermelho vivo com aquele novo homem que surgia dentro dele. Tampouco pôde ouvir os automóveis correndo loucamente pela rua transversal à do refeitório. Quando enfim chegaram, porém, ouviu-se um estrondo.
- Maurício das Neves! Maurício das Neves! - Gritava um agente de corpo pesado que entrara correndo pela porta. - Temos provas de que a Infecção o teve como vítima! Por favor, identifique-se!
Mais agentes entravam depressa pela porta, e em todos se via um grande punho demarcado em seus macacões, com os escritos "A Força Estatal". Tais agentes agora seguiam dizendo:
- Para a proteção sua e de seus colegas, identifique-se!
Maurício sentia estar em um pesadelo. Não só a Força o fazia estremecer, como a idéia da Infecção. Mas era algo além. O que descobrira naqueles passados minutos o transformara como nada antes o fez. Chegou a perguntar-se "seria isso a Infecção?", mas não pôde terminar seu raciocínio. Um dos agentes que virava rostos de jovens presentes com sua mão e os mirava, juntamente a mirar uma foto recém-impressa de Maurício, teve a sua atenção desviada por uma jovem, a que havia sido perguntada se era feliz. Ela nada fez além de apontar com braço estendido a Maurício.
- Ele está aqui! Aqui! - Gritou o agente.
Homens de roupas escuras e máscaras de gás, os agentes da Força, correram a Maurício, que viu ser jogado sem hesitação de rosto a uma mesa, abrindo um rombo em sua bochecha esquerda. Via o sangue escorrer por sua face, mas sabia que não importava, estava infectado, estava morto.
O arrastamento até um dos furgões que diziam "A FORÇA ESTATAL" foi deveras rápido, e Maurício viu portas de aço fechar em sua frente. Voltou seu rosto ao chão, com o único pensamento repetido: "eu vou morrer, eu vou morrer". Ao notar que o automóvel não estava se movendo, olhou para frente e viu a cena mais amedrontadora de sua vida: A rua, geralmente calma, estava bloqueada em ambos os sentidos por automóveis incendiados; e os agentes Força, que Maurício podia observar através da grade de contenção do veículo, estavam paralisados, mas discutiam:
- Devemos tentar?
- O automóvel pode resistir... E você sabe que o espécime não deve ser capturado.
- É arriscado.
- Eu sei... Mas é necessário.
Maurício não sabia o que pensar. "Tentar o que? Passar pelos automóveis incendiados? Era suicídio! Espécime? Do que estavam falando?"
Sentia taquicardia no peito. Sentia ânsia. Sentia raiva, pressa, medo. Quis fechar os olhos e esperar aquele pesadelo horripilante acabar. Foi quando ouviu o ronco do motor e sentiu o movimento do furgão.
"Loucos!" - Pensou. Mas nada disse, não houve tempo nem voz. Ao chocar o veículo aos carros incendiados o impulso foi tamanho que Maurício voou de encontro à tela de proteção do furgão da Força. Desmaiado, não pôde ver os homens de rostos sérios, de uma seriedade nunca antes presenciada, arrombarem o veículo para seu resgate. Tampouco pôde ver seu transporte para longe de sua cidade - ou colméia, como este a descreveu mais cedo no mesmo dia - por gente nobre que beijava seu rosto, gente que deixava cair água dos olhos e que visava serenidade.
- Mais um salvo, Marcelo. Mais um salvo. - Falou do carro o homem de olhos vermelho-fogo.
Continua.
© Todos os direitos reservados.
sábado, 26 de abril de 2008
Pasmem! Houve um infanticídio!
Todos os instrumentos de massa, jornais, web sites jornalísticos, jornais televisivos, tudo o que pode e tem voz nessa nação de cegos estão a falar o mesmo: Houve um infanticídio!
Abra seu periódico, ligue sua televisão, ou vá até a concentração de pessoas mais próxima, todos não mudam a "faixa musical": A menina Isabella.
Para leitores do futuro, em abril de 2008 toda a atenção da mídia voltou-se a um crime hediondo, onde pais e madrastas foram culpados de assassinar a filha.
E aí que você pensa: Qual o problema?
Simples, o mesmo problema de sempre quando o assunto é movimento da mídia: manipulação.
A mídia manipula a cabeça de todos para esse crime, como se toda a criminalidade brasileira correspondesse a casos isolados como este, tentando imitar estilos de vida europeus, onde uma queda de um avião de seis passageiros é uma tragédia.
Manipula, no sentido de criar uma ilusão de poder a seus usuários, como se fossem deles o poder de julgar o caso, analisando amostras de sangue, depoimentos.
Todo esse jogo de julgamentos cria uma sociedade ignorante que se une em um bar, um colégio, uma reunião, para discutir atos e fatos de algo que não lhes cabe o julgamento, muitas vezes sem analisar fatos altamente relevantes e sempre levando a espada da justiça, mas nunca sua venda ocular - ou sempre?
Então se movimentam policiais, juízes, peritos criminais (que finalmente estão recebendo seus 15 minutos de fama) para voltarem todas as suas atenções ao caso da menina Isabella. E os outros milhares de meninas, e milhares de meninos que morrem anualmente neste país?
Outro exemplo desse maravilhoso desvio de atenção pode ser visto em uma prova de admissão da Universidade Federal do Paraná, onde a doença do escorbuto foi retratada em prosa sobre a refeição dos marinheiros da esquadra de Cabral, de 1500, sendo que essa mesma doença mata centenas, milhares, nas periferias das grandes cidades brasileiras hoje em dia, sem ter de voltar 500 anos no tempo.
Está na hora deste país acordar, e não sei se o mesmo tem esta capacidade.
© Todos os direitos reservados.
Abra seu periódico, ligue sua televisão, ou vá até a concentração de pessoas mais próxima, todos não mudam a "faixa musical": A menina Isabella.
Para leitores do futuro, em abril de 2008 toda a atenção da mídia voltou-se a um crime hediondo, onde pais e madrastas foram culpados de assassinar a filha.
E aí que você pensa: Qual o problema?
Simples, o mesmo problema de sempre quando o assunto é movimento da mídia: manipulação.
A mídia manipula a cabeça de todos para esse crime, como se toda a criminalidade brasileira correspondesse a casos isolados como este, tentando imitar estilos de vida europeus, onde uma queda de um avião de seis passageiros é uma tragédia.
Manipula, no sentido de criar uma ilusão de poder a seus usuários, como se fossem deles o poder de julgar o caso, analisando amostras de sangue, depoimentos.
Todo esse jogo de julgamentos cria uma sociedade ignorante que se une em um bar, um colégio, uma reunião, para discutir atos e fatos de algo que não lhes cabe o julgamento, muitas vezes sem analisar fatos altamente relevantes e sempre levando a espada da justiça, mas nunca sua venda ocular - ou sempre?
Então se movimentam policiais, juízes, peritos criminais (que finalmente estão recebendo seus 15 minutos de fama) para voltarem todas as suas atenções ao caso da menina Isabella. E os outros milhares de meninas, e milhares de meninos que morrem anualmente neste país?
Outro exemplo desse maravilhoso desvio de atenção pode ser visto em uma prova de admissão da Universidade Federal do Paraná, onde a doença do escorbuto foi retratada em prosa sobre a refeição dos marinheiros da esquadra de Cabral, de 1500, sendo que essa mesma doença mata centenas, milhares, nas periferias das grandes cidades brasileiras hoje em dia, sem ter de voltar 500 anos no tempo.
Está na hora deste país acordar, e não sei se o mesmo tem esta capacidade.
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ufpr
domingo, 27 de janeiro de 2008
Penso logo escrevo / Como e porque sou conflitante*.
Segue minha nova descrição de perfil:
Escrevo com dolo** sincero. Dolo esse que me arranca os escrúpulos e idolatra a expressão. Dolo que improvisa meu direito de opinião, esse passando a se barrar somente a limites legais e não a visões de terceiros ou ao tempo da voz. A minha escrita ultrapassa a voz onde o meu pensamento reverbera infinitamente, entre mentes conhecidas e desconhecidas, entre a criação e o depois, e não somente no tempo único da voz sem eco ou reprodução.
E nesse hábito, saudável, eu diria, o pensamento contínuo se marca na consequência e no autor, que contempla sua obra como parte de si, tal como vejo meu contentamento sobre minha escrita da mesma forma de que o homem de paletó vê contentamento em sua prática, ou o condenado vê contentamento em sua liberdade.
E nessa análise da obra vejo que o fruto dessa pode tardar a vir, mas que o êxtase é instantâneo e ao mesmo tempo duradouro.
*Fiquei em dúvida quanto ao melhor título e empreguei os dois, o primeiro dispensa descrição e o segundo é menção a obra "Como e porque sou romancista", de José Alencar, que tratava de sua escrita romântica com romantismo, da mesma forma que eu trato minha escrita como conflitante.
**Em termos legais "dolo" significa a intenção e o consentimento da negligência, da fraude (como o homicídio doloso, de dolo diferencia do culposo, de culpa), nesse artigo eu o uso como o consentimento da ação de pensar e escrever, que leva a palavra "sincero" para esclarecer que não vem da intenção de fraudar, e sim de expressar.
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Escrevo com dolo** sincero. Dolo esse que me arranca os escrúpulos e idolatra a expressão. Dolo que improvisa meu direito de opinião, esse passando a se barrar somente a limites legais e não a visões de terceiros ou ao tempo da voz. A minha escrita ultrapassa a voz onde o meu pensamento reverbera infinitamente, entre mentes conhecidas e desconhecidas, entre a criação e o depois, e não somente no tempo único da voz sem eco ou reprodução.
E nesse hábito, saudável, eu diria, o pensamento contínuo se marca na consequência e no autor, que contempla sua obra como parte de si, tal como vejo meu contentamento sobre minha escrita da mesma forma de que o homem de paletó vê contentamento em sua prática, ou o condenado vê contentamento em sua liberdade.
E nessa análise da obra vejo que o fruto dessa pode tardar a vir, mas que o êxtase é instantâneo e ao mesmo tempo duradouro.
*Fiquei em dúvida quanto ao melhor título e empreguei os dois, o primeiro dispensa descrição e o segundo é menção a obra "Como e porque sou romancista", de José Alencar, que tratava de sua escrita romântica com romantismo, da mesma forma que eu trato minha escrita como conflitante.
**Em termos legais "dolo" significa a intenção e o consentimento da negligência, da fraude (como o homicídio doloso, de dolo diferencia do culposo, de culpa), nesse artigo eu o uso como o consentimento da ação de pensar e escrever, que leva a palavra "sincero" para esclarecer que não vem da intenção de fraudar, e sim de expressar.
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