Lembro-me de como era o lanche em minha mão. Em plástico fino, aquele sanduíche natural não era o almoço de que eu precisava, era um marco, um marco das escolhas de saúde que eu havia tomado naquela época. Era ótimo, horrível no paladar, de uma carne de frango sem gosto, mas ótimo de se tatear e de se ver, de se notar e de sentir, a opção de uma vida mais leve.
O cenário era fabuloso. O sol estava na altura exata a iluminar aquele corredor do terceiro andar, através das longas janelas e do piso refleto tal qual lago em calor de verão.
Tenho esta imagem de estar sentado, o tal sanduíche em minha mão direita e água engarrafada – garrafa minha, antiga, não recém-comprada – em minha mão esquerda. De ver os estudantes cruzando o corredor como uma passarela do saber, exibiam em suas faces a maravilha do conhecimento, a aura da sabedoria.
E foi então que contemplei tal momento de luz: A compreensão dos meus caminhos. Pude ver por meus jovens olhos toda a minha vida, e todas as minhas escolhas até então, e todas as minhas sinas. Pude observar as diversas pessoas com quem tive conversas especialmente memoráveis, eventos os quais me fizeram sorrir ou chorar. Meu coração estava como nunca em meu peito, e eu podia sentir seus cortes passados, alguns já em cicatriz, outros procurando ainda cura.
Mas eu estava lá, naquela hora, naquele lugar, e pude sentir todo o fluxo do tempo como se fizesse todo o sentido. Não era porque eu tinha aula de desenho naquele andar, ou porque naquele dia eu precisasse almoçar e um alimento se destacasse especialmente entre outros a mostra. Era porque eu havia condicionado minha vida até ali.
Como foi belo a compreensão! Pude ver todos os traços de memórias levando-me àquela instituição, àqueles meus amigos que tão longe fisicamente estavam mas tão perto em meu coração estavam presentes! Eu pequeno, eu jovem, eu adulto, era somente um eu. Traçado através de tanto tempo a estar naquele momento, observando o sol e comendo um sanduíche natural e bebendo água engarrafada!
E então todas as minhas escolhas receberam a dádiva do perdão, pois eram elas que me levaram até ali, eram elas que me faziam ser eu, mais do que qualquer outra coisa. E naquele lapso da minha rotina – que então pareceu a mais bela das ordens e dos períodos – pude sentir o futuro convidando-me a seu festivo encontro. Mais que isso, pude sentir os traços de carne viva em meu íntimo das dores que eu havia causado e sentido através dos anos, aliviarem-se pela conclusão de que eu era naquele momento, à minha própria forma, completo. Amado, acima de tudo, por mim, que desenhara através de linhas tão sinuosas e embaralhadas, que talvez nem eu mesmo compreendesse seus resultados finais, a vida mais bela. A minha vida. E tudo fez sentido, e tudo fez-se luz.
Raios poderiam partir-me em dois ou três. Naquele momento, meu sorriso não seria quebrado nem pelo mais forte impacto; meu coração, bateria forte e vívido até se tivesse somente a terminal condição de parar sua bateção repentinamente. Eu era completo e perfeito, a meu próprio modo, e nada poderia tirar isso de minha posse.
© Todos os direitos reservados.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Sobre túneis e navalhas.
Falho em controlar minha memória,
expulsar dela as sete páginas de frustrada tortura.
Meu bem mais precioso e inigualável.
Houve espaço em meu pequeno coração,
esfaqueado,
para guardar em ironia tal lâmina?
Como pude, de tantas jóias e preciosidades, guardar-me justo disto.
“Sete páginas”, penso.
Deveria ter presumido então ser o bastante para derrubar-me agora.
Mas não,
certamente não é.
Ferrugem e desgaste a corroera.
Ferrugem do tempo e da invulnerabilidade,
que hoje me assombra.
Impedindo-me de ter o desejo sofrido de sofrer!
Minha relíquia não pertence ao passado, não.
Passado é pai do presente, mas parece tão desconexo, tão pobre e longe.
Mas é passado o que há em meu coração e em sua pequena navalha.
Passado e nunca mais passará, nunca mais arderá, e nunca mais maravilhará.
Nunca mais queimará no íntimo de meu ser,
as mais miseráveis escolhas e caminhos,
que me levaram àquele túnel negro de tristezas.
Pois sempre houve uma saída ao breu,
a qual neguei inutilmente por tanto tempo seus poderes de cura.
Mas, que minha lâmina agora, sem corte, refresque meu coração,
pois,
há de bater novamente em excitação!
Há de haver paz na luz após a penumbra.
Onde a navalha servirá, sim,
a um propósito justo à sua existência:
Será meu bem mais precioso não em dor, e não em torpor.
Mas em lembrança.
E que nesta paz, novamente há de ferver em meu ser
os demônios que fizeram-me guardar minha tortura.
Há de haver uma segunda chance à melancolia.
Pois seria um túnel demasiado curto,
caso não houvesse volta à sua atraente escuridão.
© Todos os direitos reservados.
expulsar dela as sete páginas de frustrada tortura.
Meu bem mais precioso e inigualável.
Houve espaço em meu pequeno coração,
esfaqueado,
para guardar em ironia tal lâmina?
Como pude, de tantas jóias e preciosidades, guardar-me justo disto.
“Sete páginas”, penso.
Deveria ter presumido então ser o bastante para derrubar-me agora.
Mas não,
certamente não é.
Ferrugem e desgaste a corroera.
Ferrugem do tempo e da invulnerabilidade,
que hoje me assombra.
Impedindo-me de ter o desejo sofrido de sofrer!
Minha relíquia não pertence ao passado, não.
Passado é pai do presente, mas parece tão desconexo, tão pobre e longe.
Mas é passado o que há em meu coração e em sua pequena navalha.
Passado e nunca mais passará, nunca mais arderá, e nunca mais maravilhará.
Nunca mais queimará no íntimo de meu ser,
as mais miseráveis escolhas e caminhos,
que me levaram àquele túnel negro de tristezas.
Pois sempre houve uma saída ao breu,
a qual neguei inutilmente por tanto tempo seus poderes de cura.
Mas, que minha lâmina agora, sem corte, refresque meu coração,
pois,
há de bater novamente em excitação!
Há de haver paz na luz após a penumbra.
Onde a navalha servirá, sim,
a um propósito justo à sua existência:
Será meu bem mais precioso não em dor, e não em torpor.
Mas em lembrança.
E que nesta paz, novamente há de ferver em meu ser
os demônios que fizeram-me guardar minha tortura.
Há de haver uma segunda chance à melancolia.
Pois seria um túnel demasiado curto,
caso não houvesse volta à sua atraente escuridão.
© Todos os direitos reservados.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Metáfora de homens e seus unicórnios (crônica em primeira pessoa).
Atenção: Este texto não foi passado por nenhum instrumento de censura e pode constar na lista Index Librorum Prohibitorum*.
Digamos que um dia eu afirme ter visto unicórnios. É irrelevante se eu vi ou não, eu convenço pessoas de que vi.
Isso é questionável?
Afirmo então acreditar na existência – impossível de se provar – dos unicórnios. É irrelevante se eu acredito ou não, eu convenço pessoas a acreditarem também.
Isso é questionável?
Logo, eu clemo que os unicórnios são superiores a nós humanos, são seres míticos, e que devemos idolatrá-los. Acreditando ou não eu nisto, faço com que outros acreditem.
Isso é questionável?
Passo a fundar locais de adoração aos unicórnios, funcionando em conjunto com a sociedade em volta dos mesmos. Trazendo cada vez mais pessoas ao culto.
Isso é questionável?
Afirmo que para o mantimento de tais estabelecimentos é necessária a contribuição monetária dos indivíduos os quais participam de seu culto.
Isso é questionável?
Não há prestação de contas, o capital pode vir a tornar-se excessivo.
Isso é questionável?
Em tais estabelecimentos, pessoas – que podem ou não acreditar em o que estão a fazer – são nomeadas por mim portadores da voz dos unicórnios, e tal classe social diferencia-se do cidadão comum e mesmo do participador do culto.
Isso é questionável?
Além de nomear os portadores de voz, também me sinto no direito de afirmar escritos de minha escolha como sagrados dos unicórnios. Acreditando ou não nesta identidade sagrada.
Isso é questionável?
Regras são criadas através da palavra – oral ou escrita – que digo serem dos unicórnios. Tais regras configuram a contribuição financeira ao culto como regra e percentagem da renda do membro; e regularizam o seguir de dogmas, verdades absolutas que não devem ser questionadas.
Isso é questionável?
Os dogmas servem como julgamento das atitudes dos humanos.
Isso é questionável?
As pessoas as quais nomeei serem portadores da palavra dos unicórnios são, por decisão minha, obrigados a manter uma vida sem uniões conjugais públicas. Sendo tal decisão para manter a herança destes como capital para meu culto ou não.
Isso é questionável?
Tais pessoas passam então, por não poderem satisfazer-se sexualmente com cônjugues legítimos, a abusar sexualmente de jovens de diferente ou mesmo sexo.
Isso é questionável?
Protejo tais pessoas do código judicial da sociedade de fora do culto aos unicórnios.
Isso é questionável?
Por apreciação a esta proteção, a recrio com o nome de Liberdade Religiosa, protegendo a privacidade de legalidades ou ilegalidades que ocorrem na adoração aos unicórnios.
Isso é questionável?
O culto se passa para a maioria da população. A palavra “unicórnios” passa a ser gravada com letra inicial maiúscula. Torna-se natural de um membro da sociedade ser adorador dos Unicórnios.
Isso é questionável?
O costume da crença passa a replicar-se hereditariamente. Crianças sem poder de decidir judicialmente sobre si mesmas são criadas na esfera do culto aos Unicórnios.
Isso é questionável?
Além das crianças, também convertemos povos indígenas para o culto.
Isso é questionável?
Questões científicas da sociedade, trazidas a tona por não-membros ou membros do culto entram em conflito com os dogmas estabelecidos. Portanto eu inicio um movimento público contra tais cientistas.
Isso é questionável?
Este movimento torna-se violento.
Isso é questionável?
A esfera já citada do culto aos Unicórnios engloba também escolas, colégios e universidades, mesmo estando em conflito dogmático direto com a ciência.
Isso é questionável?
Do dia para a noite meu culto dos Unicórnios ganha proporções multicontinentais. Filiais de meus estabelecimentos abrem-se em todos os cantos do mundo humano.
Isso é questionável?
O capital que gira em minha instituição é exagerado. Sobra-se dinheiro de todos os lados, e não devolvemos este dinheiro para a sociedade.
Isso é questionável?
Interesses de capital se acumulam, financiamos empresas, instituições, ideais, partidos políticos.
Isso é questionável?
Conflitos de interesses causam conflitos armados, inicio guerras em nome dos Unicórnios.
Isso é questionável?
Por fim, a ciência sobressalta seus impedimentos por mim criados. A sociedade não tolera mais a perseguição às pessoas do saber. A perseguição acaba, mas não há justiça feita a seus antigos promovedores.
Isso é questionável?
Além da justiça não ser cumprida, as escolas, empresas, e centros de conhecimento em geral geridos ou financiados por meu culto mantêm-se em funcionamento. Mantêm-se, naturalmente, conflitos de idéias em tais locais.
Isso é questionável?
Todo o capital do mundo é taxado de impostos, porém não o nosso.
Isso é questionável?
Com a taxação deste capital seria possível um retorno à sociedade, benfeitorias às comunidades. Porém isso não ocorre. Além disso, uso este dinheiro livre de impostos para financiar organizações de terceiros, e algumas minhas, e fazemos fortuna.
Isso é questionável?
Enfim estamos no século 21: Pessoas só são responsáveis por suas atitudes a partir dos 16 ou 18 anos, variando pela legislação nacional, mas ainda introduzo idéias em cabeças de crianças, e rituais de meu culto antes das mesmas possuírem a liberdade de escolher sua participação ou não; Meu culto age em países de grande miséria, e o capital que naquele gira ainda não passa por impostos, e ainda atuo por regras de recolhimento rígido dos membros de meu culto; Meu culto ainda entra em conflitos com a ciência, mesmo que esta já tenha conseguido explicar muito do funcionamento do universo e da vida, e ter comprovado errado cientificamente diversos dogmas por mim e meu culto apresentados; O capital do culto aos Unicórnios ainda financia instituições de conhecimento e corporações, e além disso tais organizações geram lucro ao mesmo; A ética ainda é colidida por meu culto, continuamos a julgar pessoas por dogmas por nós mesmos criados, direta ou indiretamente.
Isso é questionável?
Onde está a linha? O que está a ponto de ser julgado certo ou errado?
O quanto de tudo isso pode ser questionado? Mas além disso, o quanto deve ser questionado?
É preciso explicar a metáfora? Creio que não. Seguidores e devotos de "unicórnios" estão por todos os lados, e pessoas e organizações que se aproveitam destes seguidores também. Muito além de personagens históricos ou atuais, sou a personificação do medo primordial - do fim existencial -, da solidão e da depressão humana.
* Index Librorum Prohibitorum: Lista de publicações proibidas pela inquisição por heresia, "deficiência moral", "sexualidade explícita", "incorrecção política" etc. Contém obras de Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Nicolau Maquiavel, René Descartes, Rousseau, Montesquieu, Voltaire, entre outros; abolida em – pasmem – 1966.
© Todos os direitos reservados.
Digamos que um dia eu afirme ter visto unicórnios. É irrelevante se eu vi ou não, eu convenço pessoas de que vi.
Isso é questionável?
Afirmo então acreditar na existência – impossível de se provar – dos unicórnios. É irrelevante se eu acredito ou não, eu convenço pessoas a acreditarem também.
Isso é questionável?
Logo, eu clemo que os unicórnios são superiores a nós humanos, são seres míticos, e que devemos idolatrá-los. Acreditando ou não eu nisto, faço com que outros acreditem.
Isso é questionável?
Passo a fundar locais de adoração aos unicórnios, funcionando em conjunto com a sociedade em volta dos mesmos. Trazendo cada vez mais pessoas ao culto.
Isso é questionável?
Afirmo que para o mantimento de tais estabelecimentos é necessária a contribuição monetária dos indivíduos os quais participam de seu culto.
Isso é questionável?
Não há prestação de contas, o capital pode vir a tornar-se excessivo.
Isso é questionável?
Em tais estabelecimentos, pessoas – que podem ou não acreditar em o que estão a fazer – são nomeadas por mim portadores da voz dos unicórnios, e tal classe social diferencia-se do cidadão comum e mesmo do participador do culto.
Isso é questionável?
Além de nomear os portadores de voz, também me sinto no direito de afirmar escritos de minha escolha como sagrados dos unicórnios. Acreditando ou não nesta identidade sagrada.
Isso é questionável?
Regras são criadas através da palavra – oral ou escrita – que digo serem dos unicórnios. Tais regras configuram a contribuição financeira ao culto como regra e percentagem da renda do membro; e regularizam o seguir de dogmas, verdades absolutas que não devem ser questionadas.
Isso é questionável?
Os dogmas servem como julgamento das atitudes dos humanos.
Isso é questionável?
As pessoas as quais nomeei serem portadores da palavra dos unicórnios são, por decisão minha, obrigados a manter uma vida sem uniões conjugais públicas. Sendo tal decisão para manter a herança destes como capital para meu culto ou não.
Isso é questionável?
Tais pessoas passam então, por não poderem satisfazer-se sexualmente com cônjugues legítimos, a abusar sexualmente de jovens de diferente ou mesmo sexo.
Isso é questionável?
Protejo tais pessoas do código judicial da sociedade de fora do culto aos unicórnios.
Isso é questionável?
Por apreciação a esta proteção, a recrio com o nome de Liberdade Religiosa, protegendo a privacidade de legalidades ou ilegalidades que ocorrem na adoração aos unicórnios.
Isso é questionável?
O culto se passa para a maioria da população. A palavra “unicórnios” passa a ser gravada com letra inicial maiúscula. Torna-se natural de um membro da sociedade ser adorador dos Unicórnios.
Isso é questionável?
O costume da crença passa a replicar-se hereditariamente. Crianças sem poder de decidir judicialmente sobre si mesmas são criadas na esfera do culto aos Unicórnios.
Isso é questionável?
Além das crianças, também convertemos povos indígenas para o culto.
Isso é questionável?
Questões científicas da sociedade, trazidas a tona por não-membros ou membros do culto entram em conflito com os dogmas estabelecidos. Portanto eu inicio um movimento público contra tais cientistas.
Isso é questionável?
Este movimento torna-se violento.
Isso é questionável?
A esfera já citada do culto aos Unicórnios engloba também escolas, colégios e universidades, mesmo estando em conflito dogmático direto com a ciência.
Isso é questionável?
Do dia para a noite meu culto dos Unicórnios ganha proporções multicontinentais. Filiais de meus estabelecimentos abrem-se em todos os cantos do mundo humano.
Isso é questionável?
O capital que gira em minha instituição é exagerado. Sobra-se dinheiro de todos os lados, e não devolvemos este dinheiro para a sociedade.
Isso é questionável?
Interesses de capital se acumulam, financiamos empresas, instituições, ideais, partidos políticos.
Isso é questionável?
Conflitos de interesses causam conflitos armados, inicio guerras em nome dos Unicórnios.
Isso é questionável?
Por fim, a ciência sobressalta seus impedimentos por mim criados. A sociedade não tolera mais a perseguição às pessoas do saber. A perseguição acaba, mas não há justiça feita a seus antigos promovedores.
Isso é questionável?
Além da justiça não ser cumprida, as escolas, empresas, e centros de conhecimento em geral geridos ou financiados por meu culto mantêm-se em funcionamento. Mantêm-se, naturalmente, conflitos de idéias em tais locais.
Isso é questionável?
Todo o capital do mundo é taxado de impostos, porém não o nosso.
Isso é questionável?
Com a taxação deste capital seria possível um retorno à sociedade, benfeitorias às comunidades. Porém isso não ocorre. Além disso, uso este dinheiro livre de impostos para financiar organizações de terceiros, e algumas minhas, e fazemos fortuna.
Isso é questionável?
Enfim estamos no século 21: Pessoas só são responsáveis por suas atitudes a partir dos 16 ou 18 anos, variando pela legislação nacional, mas ainda introduzo idéias em cabeças de crianças, e rituais de meu culto antes das mesmas possuírem a liberdade de escolher sua participação ou não; Meu culto age em países de grande miséria, e o capital que naquele gira ainda não passa por impostos, e ainda atuo por regras de recolhimento rígido dos membros de meu culto; Meu culto ainda entra em conflitos com a ciência, mesmo que esta já tenha conseguido explicar muito do funcionamento do universo e da vida, e ter comprovado errado cientificamente diversos dogmas por mim e meu culto apresentados; O capital do culto aos Unicórnios ainda financia instituições de conhecimento e corporações, e além disso tais organizações geram lucro ao mesmo; A ética ainda é colidida por meu culto, continuamos a julgar pessoas por dogmas por nós mesmos criados, direta ou indiretamente.
Isso é questionável?
Onde está a linha? O que está a ponto de ser julgado certo ou errado?
O quanto de tudo isso pode ser questionado? Mas além disso, o quanto deve ser questionado?
É preciso explicar a metáfora? Creio que não. Seguidores e devotos de "unicórnios" estão por todos os lados, e pessoas e organizações que se aproveitam destes seguidores também. Muito além de personagens históricos ou atuais, sou a personificação do medo primordial - do fim existencial -, da solidão e da depressão humana.
* Index Librorum Prohibitorum: Lista de publicações proibidas pela inquisição por heresia, "deficiência moral", "sexualidade explícita", "incorrecção política" etc. Contém obras de Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Nicolau Maquiavel, René Descartes, Rousseau, Montesquieu, Voltaire, entre outros; abolida em – pasmem – 1966.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Memento* em forma de carta.
O motivo pelo qual sento hoje e escrevo é simples: Não quero deixar-me esquecer.
Pode parecer normal tal desejo, mas certamente ele não o é quando se trata do assunto pelo qual escreverei. Comecemos do início:
Há um ano e poucos dias, houve para mim o fim de uma Era. Quem nunca se apaixonou pode indelicadamente não concordar com o que direi, mas a verdade é simples e curta: três meses são uma vida quando bem vividos. E estes três meses acabaram-se em três ou quatro dias. Não sei ao certo. Talvez meu desejo de consciência memorial seja recente. Talvez, não, certamente é recente.
Leio hoje um trecho do pior tipo de literatura, a fictícia, onde a dor de um fim chega a ser física de tão destrutiva e imobilizante. Isso faz-me lembrar de meu fim, da época já citada.
Se um dia nos questionarmos o que é a vida, não será a resposta sobre energia dada por um físico que nos trará esclarecimento, tampouco a resposta fria da biologia. A vida na realidade é um conjunto de memórias. Só isso. Um mero conjunto de memórias quimicamente propulsionado a continuar arrematando memórias. Memórias sensoriais, emotivas, de todos os tipos.
E eis que pergunto-me, se deixarmos pouco ou muito desta herança do tempo que nos é dada desvanecer-se, não estaríamos perdendo o pouco da vida que temos? E se somos os únicos a tê-las, não somos criminosos em ética ao perder tal patrimônio? Certamente... Mas, e se tais memórias são as tristezas mais fortes e destruidoras, perdas inimagináveis ou desgraças absurdas? São ainda a nossa vida, que estamos perdendo, ou estamos a criar a verdadeira vida deixando tais podridões de lado?
Não posso ignorar, apesar da força que tal conscientização implica: ainda me recordo da época sombria da qual irei relatar como sendo eu o sofredor de sua desgraça, e ninguém mais. Sou eu o recebedor do presente do lamento e da melancolia, então devo guardá-lo como um bem tão precioso quanto minhas memórias mais belas e graciosas.
Enfim, enquanto digiro a literatura da dor mental-física, pergunto-me quantas pessoas ao ler tal obra perguntam-se intrigadas se perderam algo importante por não terem sentido desgraça semelhante em suas vidas. Inúmeras, presumo.
A verdade é que não é uma dor física. Não é passível de torpor. E não é adiável. É terrível, mas é rápido; é aterrorizante, mas no fundo é libertador. É a pior coisa que se pode sentir em uma vida de loucuras emotivas, mas é ao que nos agarramos no fim. Esta é a verdade.
Quero que entenda, e que se lembre, ou que possa imaginar: Era o mais terrível dos vazios. Incomparável com qualquer depressão repentina, é avassalador, e age no primeiro minuto do dia, quando se acorda. Os olhos se abrem, os sonhos se desvanecem e a realidade chega em um baque: Pou, e tudo vem a tona, esmagando-o.
Você não pensará neste momento no prazo do seu trabalho escolar a entregar, ou do pagamento do seu IPVA ou qualquer coisa do tipo. Você só pensará nos olhos dela. E no seu sorriso. E isso já é o suficiente para fazê-lo querer poder jogar-se para trás e adormecer o dia todo para ver se no dia seguinte estará tudo acabado. E você sabe que não estará.
Não sei por quanto tempo esta fase durou. O baque de manhã é o pior elemento desta depressão, sem dúvida, pois você tem uma vida além daquilo que perdeu, é inevitável. Seu IPVA e seu trabalho escolar ainda estarão lá independente da vontade sua de que nada mais exista, ou de que magicamente o tempo volte atrás e que você possa mudar uma palavra ou outra que tenha dito.
Pois bem, os diálogos são os que mais atormentam. Disso talvez se lembre, de como os diálogos simplesmente repetem-se até o ponto em que não se pode mais saber a diferença entre o que foi dito e o que você desejava que tenha sido dito.
E os diálogos o perseguem, e você dorme. E você acorda se sentindo uma merda, e os diálogos retornam às vezes com imagens, a visão é sempre o sentido mais traidor. E passam-se dias, e semanas. E quando você acha que está mal, os finais de semana chegam e o ócio te derruba como o atropelar de um monstro que você sabe que esteve toda a semana te esperando; ele estava na espreita.
Mas os dias passam, as semanas passam, e sua atenção irá se prender a outras coisas. Não preciso dizer as datas que seguiram ao meu fim, não é verdade? Pois na verdade é o nosso fim, porém, está tão longe de mim agora, tão seguramente e pacificamente longe de mim, que creio que esteja desaparecido para você velho tolo. Não jogue partes de sua vida fora, lembre-se disso, nem se esta possua momentos os quais você julgue merecerem poda.
Pergunto-me se ao ler essas palavras conseguirá lembrar-se daquela velha cama, daquele velho quarto, e lembrar-se dos vazios das manhãs, ao menos. As memórias dos diálogos, e essas coisas. Só há algo pior do que a tristeza: O vazio que a substitui quando se quer esquecer. Lembre-se disso.
Pode parecer normal tal desejo, mas certamente ele não o é quando se trata do assunto pelo qual escreverei. Comecemos do início:
Há um ano e poucos dias, houve para mim o fim de uma Era. Quem nunca se apaixonou pode indelicadamente não concordar com o que direi, mas a verdade é simples e curta: três meses são uma vida quando bem vividos. E estes três meses acabaram-se em três ou quatro dias. Não sei ao certo. Talvez meu desejo de consciência memorial seja recente. Talvez, não, certamente é recente.
Leio hoje um trecho do pior tipo de literatura, a fictícia, onde a dor de um fim chega a ser física de tão destrutiva e imobilizante. Isso faz-me lembrar de meu fim, da época já citada.
Se um dia nos questionarmos o que é a vida, não será a resposta sobre energia dada por um físico que nos trará esclarecimento, tampouco a resposta fria da biologia. A vida na realidade é um conjunto de memórias. Só isso. Um mero conjunto de memórias quimicamente propulsionado a continuar arrematando memórias. Memórias sensoriais, emotivas, de todos os tipos.
E eis que pergunto-me, se deixarmos pouco ou muito desta herança do tempo que nos é dada desvanecer-se, não estaríamos perdendo o pouco da vida que temos? E se somos os únicos a tê-las, não somos criminosos em ética ao perder tal patrimônio? Certamente... Mas, e se tais memórias são as tristezas mais fortes e destruidoras, perdas inimagináveis ou desgraças absurdas? São ainda a nossa vida, que estamos perdendo, ou estamos a criar a verdadeira vida deixando tais podridões de lado?
Não posso ignorar, apesar da força que tal conscientização implica: ainda me recordo da época sombria da qual irei relatar como sendo eu o sofredor de sua desgraça, e ninguém mais. Sou eu o recebedor do presente do lamento e da melancolia, então devo guardá-lo como um bem tão precioso quanto minhas memórias mais belas e graciosas.
Enfim, enquanto digiro a literatura da dor mental-física, pergunto-me quantas pessoas ao ler tal obra perguntam-se intrigadas se perderam algo importante por não terem sentido desgraça semelhante em suas vidas. Inúmeras, presumo.
A verdade é que não é uma dor física. Não é passível de torpor. E não é adiável. É terrível, mas é rápido; é aterrorizante, mas no fundo é libertador. É a pior coisa que se pode sentir em uma vida de loucuras emotivas, mas é ao que nos agarramos no fim. Esta é a verdade.
Quero que entenda, e que se lembre, ou que possa imaginar: Era o mais terrível dos vazios. Incomparável com qualquer depressão repentina, é avassalador, e age no primeiro minuto do dia, quando se acorda. Os olhos se abrem, os sonhos se desvanecem e a realidade chega em um baque: Pou, e tudo vem a tona, esmagando-o.
Você não pensará neste momento no prazo do seu trabalho escolar a entregar, ou do pagamento do seu IPVA ou qualquer coisa do tipo. Você só pensará nos olhos dela. E no seu sorriso. E isso já é o suficiente para fazê-lo querer poder jogar-se para trás e adormecer o dia todo para ver se no dia seguinte estará tudo acabado. E você sabe que não estará.
Não sei por quanto tempo esta fase durou. O baque de manhã é o pior elemento desta depressão, sem dúvida, pois você tem uma vida além daquilo que perdeu, é inevitável. Seu IPVA e seu trabalho escolar ainda estarão lá independente da vontade sua de que nada mais exista, ou de que magicamente o tempo volte atrás e que você possa mudar uma palavra ou outra que tenha dito.
Pois bem, os diálogos são os que mais atormentam. Disso talvez se lembre, de como os diálogos simplesmente repetem-se até o ponto em que não se pode mais saber a diferença entre o que foi dito e o que você desejava que tenha sido dito.
E os diálogos o perseguem, e você dorme. E você acorda se sentindo uma merda, e os diálogos retornam às vezes com imagens, a visão é sempre o sentido mais traidor. E passam-se dias, e semanas. E quando você acha que está mal, os finais de semana chegam e o ócio te derruba como o atropelar de um monstro que você sabe que esteve toda a semana te esperando; ele estava na espreita.
Mas os dias passam, as semanas passam, e sua atenção irá se prender a outras coisas. Não preciso dizer as datas que seguiram ao meu fim, não é verdade? Pois na verdade é o nosso fim, porém, está tão longe de mim agora, tão seguramente e pacificamente longe de mim, que creio que esteja desaparecido para você velho tolo. Não jogue partes de sua vida fora, lembre-se disso, nem se esta possua momentos os quais você julgue merecerem poda.
Pergunto-me se ao ler essas palavras conseguirá lembrar-se daquela velha cama, daquele velho quarto, e lembrar-se dos vazios das manhãs, ao menos. As memórias dos diálogos, e essas coisas. Só há algo pior do que a tristeza: O vazio que a substitui quando se quer esquecer. Lembre-se disso.
Com amor, admiração, e forte desejo de conhecê-lo,
Aquele que fez uso do que veio a ser seu corpo, e que abrigou sua mente, há tantos anos.
Aquele que fez uso do que veio a ser seu corpo, e que abrigou sua mente, há tantos anos.
*Memento: Agenda onde se escreve tudo o que não deve ser esquecido.
© Todos os direitos reservados.
© Todos os direitos reservados.
domingo, 2 de agosto de 2009
Moça do vestido florido.
Que de mil véus seja seu leito de descanso,
após injuriar-me com a mais bela das danças.
E a mais nobre das posturas.
Flamenco minha alma,
e arrasa em sapateio meus sentidos,
por entre passos que meus olhos falham em compreender
mas sucedo sempre em sentí-los.
Do vestido florido, que me faz hipnotizado,
visita-me em sonhos, em situações indescritíveis.
E que vivas sejam as flores, no traje que acompanha
todos sua graça e todos seus movimentos.
Por que, pergunto-me, sinto-me o mais honrado
ao poder ver a magia de seus passos, como se os fizesse para mim?
E também, por que me considero o mais inafortunado dos homens
vendo a mais bela das criaturas,
sem poder nem mesmo tocá-la ou compreendê-la.
Vejo uma dança, a qual não está no futuro nem no passado,
onde leves-me à intensidade que realiza seus jogos de graça.
Unidos, somente um, em um palco de poucas luzes.
A beleza é fraca, é fútil e traidora.
Mas a beleza do movimento da moça do vestido florido...
É surreal, é magestral.
Quem sou, que creio um dia poder dividir uma rumba qualquer,
com a moça do vestido florido?
Há todo um universo entre minha realidade,
e a dela,
onde tais flores fazem-me sempre fascinado.
© Todos os direitos reservados.
após injuriar-me com a mais bela das danças.
E a mais nobre das posturas.
Flamenco minha alma,
e arrasa em sapateio meus sentidos,
por entre passos que meus olhos falham em compreender
mas sucedo sempre em sentí-los.
Do vestido florido, que me faz hipnotizado,
visita-me em sonhos, em situações indescritíveis.
E que vivas sejam as flores, no traje que acompanha
todos sua graça e todos seus movimentos.
Por que, pergunto-me, sinto-me o mais honrado
ao poder ver a magia de seus passos, como se os fizesse para mim?
E também, por que me considero o mais inafortunado dos homens
vendo a mais bela das criaturas,
sem poder nem mesmo tocá-la ou compreendê-la.
Vejo uma dança, a qual não está no futuro nem no passado,
onde leves-me à intensidade que realiza seus jogos de graça.
Unidos, somente um, em um palco de poucas luzes.
A beleza é fraca, é fútil e traidora.
Mas a beleza do movimento da moça do vestido florido...
É surreal, é magestral.
Quem sou, que creio um dia poder dividir uma rumba qualquer,
com a moça do vestido florido?
Há todo um universo entre minha realidade,
e a dela,
onde tais flores fazem-me sempre fascinado.
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domingo, 26 de julho de 2009
Ensaio sobre o mundo de luz.
Existe um mundo além deste que conhecemos. Bastante similar ao nosso, porém cujas pessoas nascentes são diferentes, especiais. Diferentes dos humanos terrestres, estes se ligam fortemente em sentimentos uns aos outros, e carregam em suas falas e atitudes distintas a sabedoria e a riqueza de vidas bem vividas. Andam em passos leves, sobre seu mundo de igualdade. Não há guerras, não há miséria ou maldade. Este é o mundo da luz.
Eventualmente, porém, há um acontecimento mágico. As pessoas de luz enviam para nossa terra de tristezas e morte uma destas pessoas para ventre humano. Nascem e crescem tais enviados, tentando se adaptar ao nosso mundo. Líderes, revolucionários, pessoas brilhantes, pessoas simples, pessoas especiais.
Me recordo de uma pessoa de luz que um dia conheci. Em seu jeito único, apegava-se muito a sentimentos e possuía a mais brilhante das falas. E em seu triste olhar podia-se, com certo empenho, ver o universo que separava a luz de nosso pequeno mundo. Oh, com aquele olhar era possivel vislumbrar a realidade que perdemos de habitar, de pessoas cujas almas merecem o maior dos confortos.
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Eventualmente, porém, há um acontecimento mágico. As pessoas de luz enviam para nossa terra de tristezas e morte uma destas pessoas para ventre humano. Nascem e crescem tais enviados, tentando se adaptar ao nosso mundo. Líderes, revolucionários, pessoas brilhantes, pessoas simples, pessoas especiais.
Me recordo de uma pessoa de luz que um dia conheci. Em seu jeito único, apegava-se muito a sentimentos e possuía a mais brilhante das falas. E em seu triste olhar podia-se, com certo empenho, ver o universo que separava a luz de nosso pequeno mundo. Oh, com aquele olhar era possivel vislumbrar a realidade que perdemos de habitar, de pessoas cujas almas merecem o maior dos confortos.
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
Anjos.
- Então - ela hesita por um momento -, é que você não acredita em anjos?
Ele sorri.
- O que estou tentando dizer pra você, é que nunca me importei com essas coisas. Nunca. Nunca imaginei eles existindo ou o que for.
- E?
- E quero dizer que... Bom, que se há anjos, ou criaturas místicas quaisquer, alguma delas está sorrindo agora, chorando de felicidade. Por essa noite. Por o que me foi presenteado. Com certeza.
Ela sorri, passa levemente a língua pelos lábios superiores e o beija rápido mas intensamente.
- Agora, por trás do meu ceticismo, consigo ver, sentir. Isso é algo, algo importante, para mim, para nós. É um nascer do sol.
Ela o beijou novamente. Não entendeu muito do que ele quis dizer, mas não se importava. No fundo, ela também sentia como se algo grande estivesse ocorrendo.
Em um outro canto da cidade, um garoto alternava entre sentar no chão apoiado contra a parede roçando a testa e andar de um lado para o outro do quarto como se estivesse perdido.
"Não é mais a mesma coisa. De jeito nenhum. Nunca mais será o mesmo entre nós. Por que ela foi agir daquela forma? O que devo fazer?" Divagava o garoto.
A noite terminou com ele irritado mandando mensagens grosseiras pela internet. E se sentindo satisfeito. Somente para nos dias, semanas, seguintes arrepender-se de suas atitudes e entrar em um estado depressivo.
Já em outras atmosferas:
- Quantos grandes amores eu tive? Bom, quantos destes temos direito a ter na vida? - Sorriu de leve o homem.
A mulher com quem conversava era alta, de corpo bonito e rosto bem conservado. Era a situação com a qual ele imaginava desde jovem. Uma vida de dedicação, esforços, uma vida dentro das regras, para crescer em um homem atraente, de sucesso, desejado, em uma festa de alta sociedade, com as melhores mulheres e todas à sua "escolha".
- Eu diria que três. - Respondeu a moça.
- É, essa é uma pergunta interessante. Eu ensaiava respostas para essas perguntas quando mais moço. Creio que pensar em um amor perdido como um número a mais em algum contador que se usa em conversas com mulheres deve ser reconfortante. - Sorriu de leve, com ironia. - Mas acho que talvez zero seja a resposta apropriada. Fui solteiro toda a minha vida.
- Solteiro toda a sua vida? - Perguntou a moça com uma mistura de "quase surpresa" com graça.
- Se estou com alguém, apaixonado, ou o que for, mas não posso mostrar meu eu verdadeiro para essa pessoa, qual é o nome disso? Eu diria que é solteirice. Nada mais que solteirice, e não deve ser amor, um grande amor.
Ela sorriu. Ele sabia que a tinha conquistado com aquelas palavras. Por mais que este não tenha sido seu objetivo em dizê-las.
O homem termina sua janta e então desce as escadas para a sala de estar.
"Como se acabou tão rapidamente? Não posso culpá-la, concordo que não era mais como antigamente, mas ainda assim. Como?" Pensava.
Estava nos seus vinte e tantos anos. Em uma casa de um milhão de reais. Vazia. Escura.
Cadê os anjos agora, que o amor se foi? Estão o quê? Brigando? Tristes?
Bebeu um copo de whiskey, só para lembrar de quanto odiava tal bebida. Tragou um caximbo. Andou um pouco evitando o sono. E então foi dormir.
O menino acorda com o aviso sonoro de uma mensagem de texto em seu celular.
"Amo você. Muito..."
Sentiu-se a pessoa mais feliz do mundo. Queria manter aquele momento para sempre. Aquele sentimento, para sempre.
Todos são o mesmo garoto-homem, onde o tempo não existe. "Onde estariam os anjos", ele se perguntava sazonalmente em sua vida.
Onde?
Onde estariam os anjos?
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Ele sorri.
- O que estou tentando dizer pra você, é que nunca me importei com essas coisas. Nunca. Nunca imaginei eles existindo ou o que for.
- E?
- E quero dizer que... Bom, que se há anjos, ou criaturas místicas quaisquer, alguma delas está sorrindo agora, chorando de felicidade. Por essa noite. Por o que me foi presenteado. Com certeza.
Ela sorri, passa levemente a língua pelos lábios superiores e o beija rápido mas intensamente.
- Agora, por trás do meu ceticismo, consigo ver, sentir. Isso é algo, algo importante, para mim, para nós. É um nascer do sol.
Ela o beijou novamente. Não entendeu muito do que ele quis dizer, mas não se importava. No fundo, ela também sentia como se algo grande estivesse ocorrendo.
*
Em um outro canto da cidade, um garoto alternava entre sentar no chão apoiado contra a parede roçando a testa e andar de um lado para o outro do quarto como se estivesse perdido.
"Não é mais a mesma coisa. De jeito nenhum. Nunca mais será o mesmo entre nós. Por que ela foi agir daquela forma? O que devo fazer?" Divagava o garoto.
A noite terminou com ele irritado mandando mensagens grosseiras pela internet. E se sentindo satisfeito. Somente para nos dias, semanas, seguintes arrepender-se de suas atitudes e entrar em um estado depressivo.
*
Já em outras atmosferas:
- Quantos grandes amores eu tive? Bom, quantos destes temos direito a ter na vida? - Sorriu de leve o homem.
A mulher com quem conversava era alta, de corpo bonito e rosto bem conservado. Era a situação com a qual ele imaginava desde jovem. Uma vida de dedicação, esforços, uma vida dentro das regras, para crescer em um homem atraente, de sucesso, desejado, em uma festa de alta sociedade, com as melhores mulheres e todas à sua "escolha".
- Eu diria que três. - Respondeu a moça.
- É, essa é uma pergunta interessante. Eu ensaiava respostas para essas perguntas quando mais moço. Creio que pensar em um amor perdido como um número a mais em algum contador que se usa em conversas com mulheres deve ser reconfortante. - Sorriu de leve, com ironia. - Mas acho que talvez zero seja a resposta apropriada. Fui solteiro toda a minha vida.
- Solteiro toda a sua vida? - Perguntou a moça com uma mistura de "quase surpresa" com graça.
- Se estou com alguém, apaixonado, ou o que for, mas não posso mostrar meu eu verdadeiro para essa pessoa, qual é o nome disso? Eu diria que é solteirice. Nada mais que solteirice, e não deve ser amor, um grande amor.
Ela sorriu. Ele sabia que a tinha conquistado com aquelas palavras. Por mais que este não tenha sido seu objetivo em dizê-las.
*
O homem termina sua janta e então desce as escadas para a sala de estar.
"Como se acabou tão rapidamente? Não posso culpá-la, concordo que não era mais como antigamente, mas ainda assim. Como?" Pensava.
Estava nos seus vinte e tantos anos. Em uma casa de um milhão de reais. Vazia. Escura.
Cadê os anjos agora, que o amor se foi? Estão o quê? Brigando? Tristes?
Bebeu um copo de whiskey, só para lembrar de quanto odiava tal bebida. Tragou um caximbo. Andou um pouco evitando o sono. E então foi dormir.
*
O menino acorda com o aviso sonoro de uma mensagem de texto em seu celular.
"Amo você. Muito..."
Sentiu-se a pessoa mais feliz do mundo. Queria manter aquele momento para sempre. Aquele sentimento, para sempre.
*
Todos são o mesmo garoto-homem, onde o tempo não existe. "Onde estariam os anjos", ele se perguntava sazonalmente em sua vida.
Onde?
Onde estariam os anjos?
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