-Quarenta e seis?
-Sim... E você, setenta e dois?
-Sim. - Responde, e brevemente olha uma foto em sua mão. Levanta os olhos à quarenta e seis de um jeito frio, com uma expressão de "entrega errada" no rosto.
-Você não parecia ter essas sardas na sua ficha. E seu cabelo parecia mais curto.
-É uma foto velha, você quer cancelar?
-Não, dá pro gasto.
Um olhar seco, porém afirmativo, e a resposta:
-Você também.
Em alguns minutos os dois desconhecidos tiram as roupas um defronte o outro, com breves olhares de fiscalização.
Após o coito a ligação foi feita: Olhares satisfeitos cruzam o ambiente, mãos sujas da mais humana das atividades se tocam.
-Foi melhor que meu último. - Diz setenta e dois.
-Ah, foi como sempre para mim.
E então há aquele momento especial, aquele sorriso misterioso, impagável. Os dois, homem e mulher, entraram em sintonia; para tanto não precisaram de diálogos fúteis ou eventos sociais. Tampouco os dois precisaram se entender, ou se complementar perante a sociedade ou perante seus conhecidos.
Aquele sorriso é tudo. Conexão feita dá início à segunda fase, infinitamente mais importante. Ambos deitados e nus, e Setenta e dois começa falando sobre o estresse de sua ocupação, sobre como tem medo de se tornar inútil. Conversa vai e vem e logo estão e falar do inacabável desespero humano, do medo da morte, da insignificância e da ignorância.
Horas fluem naquela conversa maravilhosa. Segredos indizíveis, vergonhas desumanas, mágoas avassaladoras e vontades imorais são colocados para fora como um processo mútuo de limpeza.
Acabado o desespero o silêncio traz a única - e breve - tristeza do evento: este acabara. Ao fim não se reserva beijo, abraço ou carinho, somente a gratidão e a certeza de que jamais se reencontrarão.
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domingo, 22 de junho de 2008
domingo, 11 de maio de 2008
Dissertação para tempos inferiores - Primeira Parte.
Segunda Parte.
Terceira Parte.
11/05/2082
Distrito Norte49
Turma 257C
Aluno nº 68
Dissertação para tempos inferiores.
Enunciado: Ressaltar as diferenças na cultura e no desenvolvimento de diferentes modos de produção através de uma dissertação direcionada a um povo de uma época inferior.
Olá povo de 2010, meu nome é Marcos Neto Santos, mas por aqui me conhecem mais como nº 68 mesmo. Venho a falar-lhes do futuro, onde resido. Minha sociedade diz ser perfeita (é o que nos dizem todos os dias, de todas as formas possíveis) e para isso nos fizeram esse pedido de trabalho (que é realizado desde anos e anos atrás) para que possamos mandar uma carta de forma fictícia a uma época antiga, e escolhi 2010.
O porquê de minha escolha: Simples, sua sociedade deve ser muito legal! Imagino em noites de insônia como deve ser utilizar recursos sem se preocupar com taxas de reciclagem, ou como pensar no futuro como uma incógnita, ou o melhor, nem pensar no futuro!
De todas as épocas que estudamos a que mais me agrada é a de vocês, sério mesmo. Como deveria ser divertido tantos brinquedos provenientes do petróleo, e de formatos diversos, ou como deveria ser rabiscar e rabiscar em folhas, sem ter de usar o computador, que nessa época estava em um crescimento tecnológico incrível, também. Como deveria ser andar de autos, queimando gasolina sem se incomodar com poluição, e isso é só o começo. Minha nossa, como deve ter sido presenciar tantas mudanças! Aquecimento global, guerras por recursos, novas idéias de todos os cantos, e claro, todas as revoluções!
Ainda assim, mesmo com tudo isso, o que mais me interessa são as famílias. Oh, palavra forte para a época: “Família”. Mal posso imaginar como deve ter sido bom para a grande parte da população essa vivência entre seres de mesma genética, ah, que vida! Sabe, povo de 2010, nos dias em que vivo família é coisa do passado. Nossos mestres (acredito que a palavra para sua época seria professores) nos dizem que “o problema do capitalismo neoliberal é a hereditariedade do capital e das cotas em empresas, que andava sempre de mãos dadas com o nepotismo e idéias errôneas repassadas em família, como preconceito e antiética” (já nos fizeram decorar esse texto), sei lá, talvez eles estejam certos, mas que seria divertido viver com pai e mãe deveria!
Não sei se estou dissertando corretamente no tema, mas é o que minha cabeça me diz a fazer, só não espero ninguém gritando “digressão, digressão” para mim, aliás, essa época de vocês é a época deste meu livro preferido: “O apanhador no campo de centeio”, ah, como gostaria de sentir o toque de um exemplar original em minhas mãos, no bom e velho papel, que tanto vemos em fotos, mas que tão pouco vimos frente a frente.
Continua.
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Terceira Parte.
11/05/2082
Distrito Norte49
Turma 257C
Aluno nº 68
Dissertação para tempos inferiores.
Enunciado: Ressaltar as diferenças na cultura e no desenvolvimento de diferentes modos de produção através de uma dissertação direcionada a um povo de uma época inferior.
Olá povo de 2010, meu nome é Marcos Neto Santos, mas por aqui me conhecem mais como nº 68 mesmo. Venho a falar-lhes do futuro, onde resido. Minha sociedade diz ser perfeita (é o que nos dizem todos os dias, de todas as formas possíveis) e para isso nos fizeram esse pedido de trabalho (que é realizado desde anos e anos atrás) para que possamos mandar uma carta de forma fictícia a uma época antiga, e escolhi 2010.
O porquê de minha escolha: Simples, sua sociedade deve ser muito legal! Imagino em noites de insônia como deve ser utilizar recursos sem se preocupar com taxas de reciclagem, ou como pensar no futuro como uma incógnita, ou o melhor, nem pensar no futuro!
De todas as épocas que estudamos a que mais me agrada é a de vocês, sério mesmo. Como deveria ser divertido tantos brinquedos provenientes do petróleo, e de formatos diversos, ou como deveria ser rabiscar e rabiscar em folhas, sem ter de usar o computador, que nessa época estava em um crescimento tecnológico incrível, também. Como deveria ser andar de autos, queimando gasolina sem se incomodar com poluição, e isso é só o começo. Minha nossa, como deve ter sido presenciar tantas mudanças! Aquecimento global, guerras por recursos, novas idéias de todos os cantos, e claro, todas as revoluções!
Ainda assim, mesmo com tudo isso, o que mais me interessa são as famílias. Oh, palavra forte para a época: “Família”. Mal posso imaginar como deve ter sido bom para a grande parte da população essa vivência entre seres de mesma genética, ah, que vida! Sabe, povo de 2010, nos dias em que vivo família é coisa do passado. Nossos mestres (acredito que a palavra para sua época seria professores) nos dizem que “o problema do capitalismo neoliberal é a hereditariedade do capital e das cotas em empresas, que andava sempre de mãos dadas com o nepotismo e idéias errôneas repassadas em família, como preconceito e antiética” (já nos fizeram decorar esse texto), sei lá, talvez eles estejam certos, mas que seria divertido viver com pai e mãe deveria!
Não sei se estou dissertando corretamente no tema, mas é o que minha cabeça me diz a fazer, só não espero ninguém gritando “digressão, digressão” para mim, aliás, essa época de vocês é a época deste meu livro preferido: “O apanhador no campo de centeio”, ah, como gostaria de sentir o toque de um exemplar original em minhas mãos, no bom e velho papel, que tanto vemos em fotos, mas que tão pouco vimos frente a frente.
Continua.
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