Pense em um mundo de praça sem ruas, somente calçada e pessoas circulando. Há nesse mundo uma chuva de que todos nós já experimentamos, ou anseamos por experimentar.
Pessoas diferem em interior por o que diferem na atitude: Existem os que não se desprendem de seus guarda-chuvas, com um medo obsessivo de se molharem daquela água forte, e quando olham para o lado, para um chamariz qualquer, logo enterram o pé em poças e mergulham em arrependimento.
Outros preferem olhar sempre para o solo, para terem certeza que não pisarão em falso. Quando estes decidem levantar os olhos o caminho todo se passou e de nada aproveitaram, pois só o que viram foi a si mesmos por seus olhares amedrontados.
Há também gente que tomou da água caída por acidente e decidiu se deixar levar, para o horror dos medrosos, mas também sofrendo pela chuva forte.
E há por fim os mais interessantes de todos, os que amam a chuva. Andam felizes por estarem molhados, sorrindo ou tirando prazer de sua melancolia, quando o riso não vem.
Qual desses é você, oh humano?
*Nota: Para quem não interpretou a metáfora sozinho há uma "legenda" no primeiro comentário deste artigo com a minha interpretação.
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008
domingo, 27 de julho de 2008
Márcio - Parte 1.
I - O antes.
Um homem chega cambaleando ao balcão e diz ao atendente:
- Eu... É... Eu levantei a cerveja assim - o homem representa a ação levantando a garrafa vazia, estava muito alcoolizado - e o garçom fez que não... Não sei o que... Não importa... Me dá uma cerveja.
O atendente olha com um olhar calmo, pacífico:
- O senhor já bebeu o bastante, o que acha de ir embora descansar?
- Mas eu quero uma cerveja! Olha, eu não tou dirigin... Só me dá uma cerveja!
- Amigo, você já bebeu bastante, não vou servir mais a você, não quero problemas.
- Mas o senhor! O senhor está sendo incon... Inconsequente comigo!
- Olha o cara! Falando bonito pra se fazer de sóbrio! - Exclamou um dos clientes do bar.
O homem alcoolizado aparentava ter 20, 22 anos de idade, mas mal se aguentava em pé pela embriaguez. Olhou rapidamente para o indivíduo que havia falado, e voltou novamente os olhos ao atendente:
- Você não sabe quem eu sou, hein! Me deixa comprar essa cerveja logo! - E ao falar isso segura o braço esquerdo do atendente, que estica sua mão esquerda para dentro de uma gaveta ao lado, tateando à procura de algo.
- Amigo, não quero problemas, saia do bar. - Não havia nervosismo em sua voz.
- Você não entende, cara, não entende! Eu só quero a cerveja! - Falou o alcoolizado, mal conseguindo manter o olhar fixo. Este então levanta a garrafa que havia deixado no balcão, movimentando-a agressivamente contra o atendente, e continua - Me dá essa cer... Me dá uma cerveja, cara!
- Eu peço que você se afaste do balcão! - Falou o atendente, já com um revólver em mãos.
- Pra que tirar essa arma? Eu só quero um pouco... quero um pouco de respeito!
Não se pode saber se o homem iria jogar a garrafa à sua frente, ou se iria parti-la na cabeça do atendente, quando ele movimentou rapidamente o seu braço um tiro ecoou no recinto, e o homem caiu para trás sem vida, com a marca do tiro no peito.
Sangue, gritos horrorizados, medo, pessoas desesperadas.
Quando chegaram os policiais foram ouvidos depoimentos de várias pessoas, e concluído que se tratava mesmo de um caso de legítima defesa; porém, pelas roupas formais e olhares frios dos homens que vieram buscar o corpo do tal Henry - sua identidade foi descoberta pela polícia - esta estória estava longe de acabar.
*Nota: "Márcio" é uma estória seriada cronologicamente escrita como um conjunto de curtas-metragens, é o primeiro escrito do Divagações que não é puramente literário; e, para se ter boa idéia do que foi imaginado para a estória, o melhor é ler como se você, leitor, estivesse vendo um filme, um filme fragmentado, e este fosse o seu roteiro.
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Um homem chega cambaleando ao balcão e diz ao atendente:
- Eu... É... Eu levantei a cerveja assim - o homem representa a ação levantando a garrafa vazia, estava muito alcoolizado - e o garçom fez que não... Não sei o que... Não importa... Me dá uma cerveja.
O atendente olha com um olhar calmo, pacífico:
- O senhor já bebeu o bastante, o que acha de ir embora descansar?
- Mas eu quero uma cerveja! Olha, eu não tou dirigin... Só me dá uma cerveja!
- Amigo, você já bebeu bastante, não vou servir mais a você, não quero problemas.
- Mas o senhor! O senhor está sendo incon... Inconsequente comigo!
- Olha o cara! Falando bonito pra se fazer de sóbrio! - Exclamou um dos clientes do bar.
O homem alcoolizado aparentava ter 20, 22 anos de idade, mas mal se aguentava em pé pela embriaguez. Olhou rapidamente para o indivíduo que havia falado, e voltou novamente os olhos ao atendente:
- Você não sabe quem eu sou, hein! Me deixa comprar essa cerveja logo! - E ao falar isso segura o braço esquerdo do atendente, que estica sua mão esquerda para dentro de uma gaveta ao lado, tateando à procura de algo.
- Amigo, não quero problemas, saia do bar. - Não havia nervosismo em sua voz.
- Você não entende, cara, não entende! Eu só quero a cerveja! - Falou o alcoolizado, mal conseguindo manter o olhar fixo. Este então levanta a garrafa que havia deixado no balcão, movimentando-a agressivamente contra o atendente, e continua - Me dá essa cer... Me dá uma cerveja, cara!
- Eu peço que você se afaste do balcão! - Falou o atendente, já com um revólver em mãos.
- Pra que tirar essa arma? Eu só quero um pouco... quero um pouco de respeito!
Não se pode saber se o homem iria jogar a garrafa à sua frente, ou se iria parti-la na cabeça do atendente, quando ele movimentou rapidamente o seu braço um tiro ecoou no recinto, e o homem caiu para trás sem vida, com a marca do tiro no peito.
Sangue, gritos horrorizados, medo, pessoas desesperadas.
Quando chegaram os policiais foram ouvidos depoimentos de várias pessoas, e concluído que se tratava mesmo de um caso de legítima defesa; porém, pelas roupas formais e olhares frios dos homens que vieram buscar o corpo do tal Henry - sua identidade foi descoberta pela polícia - esta estória estava longe de acabar.
*Nota: "Márcio" é uma estória seriada cronologicamente escrita como um conjunto de curtas-metragens, é o primeiro escrito do Divagações que não é puramente literário; e, para se ter boa idéia do que foi imaginado para a estória, o melhor é ler como se você, leitor, estivesse vendo um filme, um filme fragmentado, e este fosse o seu roteiro.
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sexta-feira, 25 de julho de 2008
Eis que olhei para homens tristes.
Eis que naquele momento olhei para homens tristes.
Em meus farrapos de fracasso quis amá-los,
amá-los como se amam aqueles que nos são de sangue
porque de sangue e sangue agora eram de coração.
Vi então pessoas felizes,
de ódio sincero e grosseiro quis amarrá-las aos carros em movimento,
vê-las sofrendo em agonia obituária,
ver arreganhar-lhas o grito nas gargantas vis que compunham aqueles corpos,
corpos de débeis.
Eis que vi pessoas amando, e elas me trouxeram aquele sentimento,
quase de piedade.
Vi-as andando e quis colocá-las em grandes mostradores, vendo seus amores as traindo,
as destruindo com palavras,
vendo tudo decair em suas frentes como havia decaído em minha.
Mirei uma moça abatida, que andava como corpo sem alma.
Quis segurá-la pelos braços e carregá-la comigo,
nessa dança de monstros trajados de gente,
nesse bailar repetitivo e destruidor, que os que pouco o conhecem chamam de vida.
Olhei então à beira do horizonte, e vi uma menina de rosto inocente.
Não a haviam pegado! Os monstros não a haviam achado!
Quis tomá-la em um abraço e segurá-la para sempre,
salvá-la daquela dança infernal.
"Por que também essa criança está aqui?
Ela não merece, ninguém merece! Mas ela, não é certo!"
Gritos de minha voz rouca, daquele pigarro sujo de fumante, ecoaram.
Em meio aos gritos levitei de braços abertos daquele jogo doentio.
Vi ganchos negros surgirem, perfurarem aos poucos e estraçalharem o meu corpo.
Em meio à dor, em meio a ver ossos estalando,
entranhas voando para todos os lados.
Cerrei meu punho até me voarem as falanges,
girei meus olhos para todos os lados até me saírem os globos.
E sorri,
sorri até meu rosto estar em pedaços.
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Em meus farrapos de fracasso quis amá-los,
amá-los como se amam aqueles que nos são de sangue
porque de sangue e sangue agora eram de coração.
Vi então pessoas felizes,
de ódio sincero e grosseiro quis amarrá-las aos carros em movimento,
vê-las sofrendo em agonia obituária,
ver arreganhar-lhas o grito nas gargantas vis que compunham aqueles corpos,
corpos de débeis.
Eis que vi pessoas amando, e elas me trouxeram aquele sentimento,
quase de piedade.
Vi-as andando e quis colocá-las em grandes mostradores, vendo seus amores as traindo,
as destruindo com palavras,
vendo tudo decair em suas frentes como havia decaído em minha.
Mirei uma moça abatida, que andava como corpo sem alma.
Quis segurá-la pelos braços e carregá-la comigo,
nessa dança de monstros trajados de gente,
nesse bailar repetitivo e destruidor, que os que pouco o conhecem chamam de vida.
Olhei então à beira do horizonte, e vi uma menina de rosto inocente.
Não a haviam pegado! Os monstros não a haviam achado!
Quis tomá-la em um abraço e segurá-la para sempre,
salvá-la daquela dança infernal.
"Por que também essa criança está aqui?
Ela não merece, ninguém merece! Mas ela, não é certo!"
Gritos de minha voz rouca, daquele pigarro sujo de fumante, ecoaram.
Em meio aos gritos levitei de braços abertos daquele jogo doentio.
Vi ganchos negros surgirem, perfurarem aos poucos e estraçalharem o meu corpo.
Em meio à dor, em meio a ver ossos estalando,
entranhas voando para todos os lados.
Cerrei meu punho até me voarem as falanges,
girei meus olhos para todos os lados até me saírem os globos.
E sorri,
sorri até meu rosto estar em pedaços.
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sexta-feira, 11 de julho de 2008
Dorme agora. É só o vento lá fora.*
“Olhos claros como o brilho da lua”.
...
“Mãos suaves cujo toque possui uma magia inexplicável”.
...
“Bochechas vermelhas que suaves se tornam pelo beijo enamorado”.
Logo que terminara o seu poema o garoto levanta-se em um salto e começa a andar. Havia um “quê” de conhecido naquelas frases delicadas, algo como um breve dejà vú.
Mãos abanam um cumprimento rápido à moça conhecida, ao passar por uma casa de muros verde-lima. Mais pessoas cumprimentadas e mais sorrisos abertos em direção ao garoto. Algo estava estranho naqueles sorrisos.
O garoto apressa o passo para chegar logo à casa de sua amada, entregar o tal poema, escutando respirações ofegantes de si.
Mais um rosto conhecido a ser cumprimentado, mais um “olá” com o famoso gesto de mão; o menino agora nota o estranho nos sorrisos, são sorrisos inertes, quase débeis.
Mais respirações ofegantes. Queria chegar rápido à sua menina, ver o sorriso recebido, o mais gratificante de todos os prêmios.
“Um momento que lembrarei para sempre. Essa rua, essas palavras”. Pensa o garoto. "Para sempre".
Seus olhos miram suas mãos à procura da carta a ser entregue. Desvanecera! Onde estaria?
Olhos rápidos, aparentando loucura, cruzam todos os lados, não se acham cartas, só branco, nada mais que branco.
Respiração ofegante se torna mais e mais alta. Não estava mais a correr, não via mais a sua direção ou a rua.
Som de choro breve e palavras distantes: “É um mal terrível, porém não há nada a fazermos”.
Algo não estava certo, algo não se encaixava.
Boca aberta e gosto de pílulas pela garganta.
“Basta, agora basta. Durma um pouco”.
O garoto atemporal queria saber o que estava acontecendo. Queria saber para onde teria ido seu poema ou seus conhecidos, queria saber por que suas mãos estavam tão secas e fracas, mas algo o impedia de pensar, algo o estava cansando.
“Hora de dormir”.
Ele queria entender tudo, tudo o que estava passando, mas estava cansado. Precisava de algum tempo de sono, somente algum tempo de sono. E tudo faria sentido. Só algum tempo de sono...
* Legião Urbana - Pais e Filhos.
**Nota: Para quem não entendeu nada, mas nada mesmo deste conto, ofereço uma interpretação nos comentários do mesmo.
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...
“Mãos suaves cujo toque possui uma magia inexplicável”.
...
“Bochechas vermelhas que suaves se tornam pelo beijo enamorado”.
Logo que terminara o seu poema o garoto levanta-se em um salto e começa a andar. Havia um “quê” de conhecido naquelas frases delicadas, algo como um breve dejà vú.
Mãos abanam um cumprimento rápido à moça conhecida, ao passar por uma casa de muros verde-lima. Mais pessoas cumprimentadas e mais sorrisos abertos em direção ao garoto. Algo estava estranho naqueles sorrisos.
O garoto apressa o passo para chegar logo à casa de sua amada, entregar o tal poema, escutando respirações ofegantes de si.
Mais um rosto conhecido a ser cumprimentado, mais um “olá” com o famoso gesto de mão; o menino agora nota o estranho nos sorrisos, são sorrisos inertes, quase débeis.
Mais respirações ofegantes. Queria chegar rápido à sua menina, ver o sorriso recebido, o mais gratificante de todos os prêmios.
“Um momento que lembrarei para sempre. Essa rua, essas palavras”. Pensa o garoto. "Para sempre".
Seus olhos miram suas mãos à procura da carta a ser entregue. Desvanecera! Onde estaria?
Olhos rápidos, aparentando loucura, cruzam todos os lados, não se acham cartas, só branco, nada mais que branco.
Respiração ofegante se torna mais e mais alta. Não estava mais a correr, não via mais a sua direção ou a rua.
Som de choro breve e palavras distantes: “É um mal terrível, porém não há nada a fazermos”.
Algo não estava certo, algo não se encaixava.
Boca aberta e gosto de pílulas pela garganta.
“Basta, agora basta. Durma um pouco”.
O garoto atemporal queria saber o que estava acontecendo. Queria saber para onde teria ido seu poema ou seus conhecidos, queria saber por que suas mãos estavam tão secas e fracas, mas algo o impedia de pensar, algo o estava cansando.
“Hora de dormir”.
Ele queria entender tudo, tudo o que estava passando, mas estava cansado. Precisava de algum tempo de sono, somente algum tempo de sono. E tudo faria sentido. Só algum tempo de sono...
* Legião Urbana - Pais e Filhos.
**Nota: Para quem não entendeu nada, mas nada mesmo deste conto, ofereço uma interpretação nos comentários do mesmo.
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segunda-feira, 30 de junho de 2008
Dissertação para tempos inferiores - Terceira Parte.
Primeira Parte.
Segunda Parte.
Falei tanto de vocês e não falei de nós. Basicamente a solução para os problemas de seu modo de produção foi que a hereditariedade seria cortada completamente, sabe. Por exemplo, hoje um casal pode ter filhos tranqüilamente, mas os filhos não são propriedade e escolhas deles, são do Estado Maior. É um mundo justo sabe, o cidadão recebe seu cargo, seu capital e seu prestígio através de somente suas próprias conquistas. Tenho pena somente dos marginais, esses são os que acabam por ser considerados sem capacidade para trabalho, meu padrinho (estudante mais velho que aconselha um mais novo) diz que ao tirar o direito de trabalho de um homem ele está se tornando um bárbaro, mas se isso realmente é anti-ético é só questão de tempo até mudarem para uma nova legislação que seja ética para com os marginais, pois como nossos mestres dizem o nosso Estado é completamente maleável, e por isso que ele é tão correto.
Povo de 2010, há uma palavra de sua época que diz muito sobre o que está ocorrendo por aqui: conspiração. Pelos grandes corredores e pela comunicação inter computadores cada vez mais e mais há mensagens antigoverno, antiestado, sabe, que dizem que nossa ração é cheia de antidepressivos que nos debilitam mentalmente e que a vida fora de família é somente para fortalecer o Estado. De um lado temos revolucionários querendo mudanças e de outro nossos mestres falando que isso tudo é passageiro, já eu acho na realidade que não há perfeição, não há sociedade perfeita, então mesmo essa tão bem aperfeiçoada terá de lidar com algumas revoluções periódicas, mas essa é só minha opinião.
Nos dizem em aula que em sua época turmas chegavam a ter menos de 50 alunos, incrível, e que todos os alunos, mesmo os mais e os menos inteligentes, iam para a mesma sala de aula, não eram separados, me pergunto como isso é possível! Atualmente há uma taxa de aptidão mental, onde eu tirei 74 e acabei indo para a turma de nível 4 (ao total são 5 níveis) e depois disso você recebe uma numeração, como já disse sou o 68, de 430 alunos. Dizem que o maior símbolo da perfeição de nossa sociedade é a capacidade intelectual dos estudantes, mas acredito que na época de vocês, alunos de 8 anos (como eu) sabiam tudo o que eu sei, talvez até mais.
© Todos os direitos reservados.
Segunda Parte.
Falei tanto de vocês e não falei de nós. Basicamente a solução para os problemas de seu modo de produção foi que a hereditariedade seria cortada completamente, sabe. Por exemplo, hoje um casal pode ter filhos tranqüilamente, mas os filhos não são propriedade e escolhas deles, são do Estado Maior. É um mundo justo sabe, o cidadão recebe seu cargo, seu capital e seu prestígio através de somente suas próprias conquistas. Tenho pena somente dos marginais, esses são os que acabam por ser considerados sem capacidade para trabalho, meu padrinho (estudante mais velho que aconselha um mais novo) diz que ao tirar o direito de trabalho de um homem ele está se tornando um bárbaro, mas se isso realmente é anti-ético é só questão de tempo até mudarem para uma nova legislação que seja ética para com os marginais, pois como nossos mestres dizem o nosso Estado é completamente maleável, e por isso que ele é tão correto.
Povo de 2010, há uma palavra de sua época que diz muito sobre o que está ocorrendo por aqui: conspiração. Pelos grandes corredores e pela comunicação inter computadores cada vez mais e mais há mensagens antigoverno, antiestado, sabe, que dizem que nossa ração é cheia de antidepressivos que nos debilitam mentalmente e que a vida fora de família é somente para fortalecer o Estado. De um lado temos revolucionários querendo mudanças e de outro nossos mestres falando que isso tudo é passageiro, já eu acho na realidade que não há perfeição, não há sociedade perfeita, então mesmo essa tão bem aperfeiçoada terá de lidar com algumas revoluções periódicas, mas essa é só minha opinião.
Nos dizem em aula que em sua época turmas chegavam a ter menos de 50 alunos, incrível, e que todos os alunos, mesmo os mais e os menos inteligentes, iam para a mesma sala de aula, não eram separados, me pergunto como isso é possível! Atualmente há uma taxa de aptidão mental, onde eu tirei 74 e acabei indo para a turma de nível 4 (ao total são 5 níveis) e depois disso você recebe uma numeração, como já disse sou o 68, de 430 alunos. Dizem que o maior símbolo da perfeição de nossa sociedade é a capacidade intelectual dos estudantes, mas acredito que na época de vocês, alunos de 8 anos (como eu) sabiam tudo o que eu sei, talvez até mais.
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domingo, 22 de junho de 2008
Horripilantemente perfeito.
-Quarenta e seis?
-Sim... E você, setenta e dois?
-Sim. - Responde, e brevemente olha uma foto em sua mão. Levanta os olhos à quarenta e seis de um jeito frio, com uma expressão de "entrega errada" no rosto.
-Você não parecia ter essas sardas na sua ficha. E seu cabelo parecia mais curto.
-É uma foto velha, você quer cancelar?
-Não, dá pro gasto.
Um olhar seco, porém afirmativo, e a resposta:
-Você também.
Em alguns minutos os dois desconhecidos tiram as roupas um defronte o outro, com breves olhares de fiscalização.
Após o coito a ligação foi feita: Olhares satisfeitos cruzam o ambiente, mãos sujas da mais humana das atividades se tocam.
-Foi melhor que meu último. - Diz setenta e dois.
-Ah, foi como sempre para mim.
E então há aquele momento especial, aquele sorriso misterioso, impagável. Os dois, homem e mulher, entraram em sintonia; para tanto não precisaram de diálogos fúteis ou eventos sociais. Tampouco os dois precisaram se entender, ou se complementar perante a sociedade ou perante seus conhecidos.
Aquele sorriso é tudo. Conexão feita dá início à segunda fase, infinitamente mais importante. Ambos deitados e nus, e Setenta e dois começa falando sobre o estresse de sua ocupação, sobre como tem medo de se tornar inútil. Conversa vai e vem e logo estão e falar do inacabável desespero humano, do medo da morte, da insignificância e da ignorância.
Horas fluem naquela conversa maravilhosa. Segredos indizíveis, vergonhas desumanas, mágoas avassaladoras e vontades imorais são colocados para fora como um processo mútuo de limpeza.
Acabado o desespero o silêncio traz a única - e breve - tristeza do evento: este acabara. Ao fim não se reserva beijo, abraço ou carinho, somente a gratidão e a certeza de que jamais se reencontrarão.
© Todos os direitos reservados.
-Sim... E você, setenta e dois?
-Sim. - Responde, e brevemente olha uma foto em sua mão. Levanta os olhos à quarenta e seis de um jeito frio, com uma expressão de "entrega errada" no rosto.
-Você não parecia ter essas sardas na sua ficha. E seu cabelo parecia mais curto.
-É uma foto velha, você quer cancelar?
-Não, dá pro gasto.
Um olhar seco, porém afirmativo, e a resposta:
-Você também.
Em alguns minutos os dois desconhecidos tiram as roupas um defronte o outro, com breves olhares de fiscalização.
Após o coito a ligação foi feita: Olhares satisfeitos cruzam o ambiente, mãos sujas da mais humana das atividades se tocam.
-Foi melhor que meu último. - Diz setenta e dois.
-Ah, foi como sempre para mim.
E então há aquele momento especial, aquele sorriso misterioso, impagável. Os dois, homem e mulher, entraram em sintonia; para tanto não precisaram de diálogos fúteis ou eventos sociais. Tampouco os dois precisaram se entender, ou se complementar perante a sociedade ou perante seus conhecidos.
Aquele sorriso é tudo. Conexão feita dá início à segunda fase, infinitamente mais importante. Ambos deitados e nus, e Setenta e dois começa falando sobre o estresse de sua ocupação, sobre como tem medo de se tornar inútil. Conversa vai e vem e logo estão e falar do inacabável desespero humano, do medo da morte, da insignificância e da ignorância.
Horas fluem naquela conversa maravilhosa. Segredos indizíveis, vergonhas desumanas, mágoas avassaladoras e vontades imorais são colocados para fora como um processo mútuo de limpeza.
Acabado o desespero o silêncio traz a única - e breve - tristeza do evento: este acabara. Ao fim não se reserva beijo, abraço ou carinho, somente a gratidão e a certeza de que jamais se reencontrarão.
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sexta-feira, 13 de junho de 2008
Terra de rei.
Terra de rei era terra boa, terra fértil.
Terra de montanha,
de pasto,
de vila.
Em terra de rei costume era lei,
vestia-se a farda do ético, do justo.
Em terra de rei a justiça era cega,
sagaz, pertinente.
Certa vez, em terra de rei,
um homem olhou além,
além do verde.
Além das colinas.
Ao pobre homem puniram-lhe os olhos,
faca passou-lhe de lado a lado.
Povo feliz felicidade consumiu,
espada de justiça de estupidez tornou-se,
jorrando o sangue do homem que viu além.
Moça jovem esticou os braços,
além do braçal e do repetitivo,
usou-os para o novo.
Espada da justiça amputou-lhe desde os ombros.
De tempos em tempos a justiça continuava,
de membros ensanguentados e povo alucinado.
Velho sábio teve sua vez na roleta do acaso,
noites de insônia idéias o presentearam.
O velho desenrolou a sua mente como uma pasta sem fim,
traçando-lhe seu destino trágico.
Mente aberta era mente morta.
Antes da guilhotina, o velho teve seu último e sábio desejo,
como prometido, pôde conversar por horas com o rei.
Então rei agora possuía mente aberta, mente fértil.
Ao velho sobrou a lâmina e ao rei o desespero.
O rei não teve lábia ou escrita para o seu povo libertar,
jamais os ensinaria todas as idéias que agora tinha.
No cair da noite tomou seu cavalo e fugiu ao horizonte.
Povo sem rei era povo revolucionário,
ou deveria ser.
Tudo continuou o mesmo.
Justiça cega é justiça traçada, e as punições continuaram.
Convencional batalhou liberdade até o fim dos tempos,
Rios de sangue, de olhos e braços, marcaram a terra de rei;
Terra de conservadorismo. Terra de ignorância.
Terra de perdição.
© Todos os direitos reservados.
Terra de montanha,
de pasto,
de vila.
Em terra de rei costume era lei,
vestia-se a farda do ético, do justo.
Em terra de rei a justiça era cega,
sagaz, pertinente.
Certa vez, em terra de rei,
um homem olhou além,
além do verde.
Além das colinas.
Ao pobre homem puniram-lhe os olhos,
faca passou-lhe de lado a lado.
Povo feliz felicidade consumiu,
espada de justiça de estupidez tornou-se,
jorrando o sangue do homem que viu além.
Moça jovem esticou os braços,
além do braçal e do repetitivo,
usou-os para o novo.
Espada da justiça amputou-lhe desde os ombros.
De tempos em tempos a justiça continuava,
de membros ensanguentados e povo alucinado.
Velho sábio teve sua vez na roleta do acaso,
noites de insônia idéias o presentearam.
O velho desenrolou a sua mente como uma pasta sem fim,
traçando-lhe seu destino trágico.
Mente aberta era mente morta.
Antes da guilhotina, o velho teve seu último e sábio desejo,
como prometido, pôde conversar por horas com o rei.
Então rei agora possuía mente aberta, mente fértil.
Ao velho sobrou a lâmina e ao rei o desespero.
O rei não teve lábia ou escrita para o seu povo libertar,
jamais os ensinaria todas as idéias que agora tinha.
No cair da noite tomou seu cavalo e fugiu ao horizonte.
Povo sem rei era povo revolucionário,
ou deveria ser.
Tudo continuou o mesmo.
Justiça cega é justiça traçada, e as punições continuaram.
Convencional batalhou liberdade até o fim dos tempos,
Rios de sangue, de olhos e braços, marcaram a terra de rei;
Terra de conservadorismo. Terra de ignorância.
Terra de perdição.
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